quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Dia Branco, consciência negra




Eu hoje acordei quase que totalmente recuperada da gripe. Acordei me sentindo bem e cheia de entusiasmo. Levei minha filha à escola, limpei a camada de neve que cobria o carro e nem me importei com a tempestade de neve que continuava a cair! Eu tinha acordado bem e o dia de hoje é um dia que me faz alegre, me faz sentir bem. Hoje é o meu dia de luta favorito neste mundo e não é um dia branco, como o que eu vivi hoje, que ia conseguir me derrubar. Ao longo do dia eu cozinhei feito uma louca, tirei neve do carro feito uma louca, andei em temperaturas abaixo de zero e não me abalei com nada, não fiquei sofrendo. Fui às compras, comprei só o que eu queria e não o que precisava comprar e depois eu conto o que temos para o jantar de hoje.





Hoje, dia 20 de novembro, é um dia muito importante e na minha opinião é a data mais importante celebrada no Brasil das últimas décadas. Hoje é o Dia Nacional da Consciência Negra. Feriado no Rio de Janeiro e não sei mais em quantos Estados do Brasil ( sabe que eu acho que já virou feriado nacional pois ontem era feriado em São Paulo também). Enfim melhor que seja finalmente feriado nacional. É que o dia da Consciência Negra é o dia em que se celebra a morte de Zumbi, o último e mais importante líder do Quilombo dos Palmares, morto durante a guerra contra as forças de Portugal que destruíram esse quilombo no ano de 1695.



O Quilombo dos Palmares é o símbolo maior da luta dos negros brasileiros contra a escravidão no Brasil e Zumbi é o principal líder da resistência negra contra o opressor português no Brasil. Mas Palmares foi muito mais do que apenas um movimento de resistência negra e inspiração para o dia da Consciência Negra. A historiografia brasileira finalmente reconhece que o Quilombo dos Palmares foi o grande movimento pela independência do Brasil e para a construção de uma nova sociedade no Brasil. De acordo com Francisco Carlos Teixeira da Silva a luta de Zumbi, Ganga Zumba e outros líderes de Palmares, era pela independência do Brasil de Portugal e pela construção de uma sociedade de homens livres, onde negros, brancos e índios pudessem viver e trabalhar livremente.




A guerra que seguiu a resistência do Quilombo dos Palmares, apesar de um acordo firmado entre Ganga Zumba e os senhores de engenho, foi um acontecimento marcante do final do século XVII, nunca havia ocorrido nada igual no Brasil até então. A historiografia tradicional durante mais de dois século ignorou o papel de Palmares como movimento independencista e definia este quilombo como sociedade de escravos fugidos, uma definição que demonstrava o deprezo das classes dominantes pelo projeto dos quilombolas. A história oficial do Brasil independente durante muito tempo reproduziu este desprezo mas a historiografia brasileira mudou muito nos últimos 40 anos. Hoje lutas com a de Zumbi em Palmares, que mostram a resistência do povo brasileiro contra a opressão, ocupam as páginas principais de todos os livros de história do Brasil.





O Prof. Francisco Carlos Teixeira da Silva, da UFRJ, foi um dos primeiros a mostrar que Palmares era diferente de todos os outros movimentos de oposição a Portugal no Brasil Colonial e Imperial. Nenhum, mas nenhum dos demais movimentos, nem mesmo a Inconfidência Mineira, defendia um projeto de rompimento das relações com Portugal (independência) para o estabelecimento de uma sociedade igualitária onde todos os homens seriam livres. Devemos ter em mente que os Inconfidentes, e outros homens que se tornaram mártires da nossa independência, foram mortos, exilados, torturados e mutilados pelas forças de Portugal no Brasil, porque eram opositores do sistema colonial, eram burgueses que buscavam autonomia, fugir do controle rígido da coroa portuguesa, comerciantes e mercadores em geral que visavam o lucro, eram majoritariamente homens brancos e todos eles senhores de escravos. Bastava possuir um único escravo que fosse, defendo eu, para que os ideais de uma sociedade livre e igualitária ficassem turvos na mente de um independencista.




Como a lógica escravista era inerente a mente e a sociedade colonial não havia idéia de liberdade ou de igualdade no Brasil que não fosse originária da cabeça de um escravo ou de um índio. Por isso é que eu gosto de celebrar o dia de hoje, data que considero tão especial, porque ela representa a história do povo brasileiro oprimido, sua luta pela liberdade. O feriado mais importante celebrado no Brasil.

No Rio de Janeiro a tradição nos anos 80 era começar a celebração na noite do dia 19 para o dia 20 que é quando Zumbi morreu. A tradição era organizar uma kizomba (palavra do kimbundo que significa festa ou bagunça!) e celebrar a noite toda. O termo kizomba já era usado nas rodas de samba de Vila Isabel por influência da família do José Ferreira (quem não souber quem ele é que me pergunte!) antes do Carnaval de 1988, quando a Vila foi para a avenida com o enredo Kizomba, Festa da Raça (o samba da Vila Isabel de 1988 começava assim: 'Valeu Zumbi, o grito forte dos Palmares, correu terras céus e mares ifluenciando a abolição...' )




Importante lembrar que Palmares não era lar apenas de negros, mas de índios, mulatos, caboclos, mamelucos e brancos, brancos pobres oprimidos pela injusta e cruel sociedade colonial. E de ciganos, prostitutas e qualquer um que se sentisse perseguido pela sociedade da época. Apesar de grande Palmares era apenas um dos milhares de quilombos que existiram e existem ainda hoje no Brasil.

A importância da celebração do dia de Zumbi deve-se ao fato de em 2008 ainda brigarmos para fazer com que os senhores de terra contemporâneos e as grandes corporações do agronegócio respeitem a Constituição do Brasil que garante o direito à terra e aos recursos naturais de quilombolas, indígenas e outras populações tradicionais. É no dia de hoje que devemos celebrar a luta pelos direito dos trabalhadores brasileiros de não serem mais tratados como se fossem escravos.

O dia de hoje deve ser celebrado por vários motivos: para que todos lembrem que Palmares é o símbolo máximo da luta por um Brasil livre, igualitário e desenvolvido. Como dia da Consciência Negra, sim, o que este dia já é. Como dia da morte do maior herói de todos os brasileiros, que morreu no dia 20 de novembro de 1695, lutando pela liberdade do Brasil e de todos os brasileiros, negros, índios, brancos e mestiços de todos os tipos. Lembrar que Zumbi é o herói da luta que travamos hoje contra o latifúndio, a concentração de terras, a monocultura, pela reforma agrária, pela demarcação das terra indígenas, contra a exploração do trabalhador agrícola e contra o trabalho escravo moderno. E que o dia Nacional de Consciência Negra se transforme no dia de luta do povo brasileiro por um país mais justo.



Que venha a neve, o gelo, os dias brancos. Eu não me importo, minha consciência é negra.

Viva Zumbi, Via Palmares, Via o Brasil.

(texto escrito originalmente para o blog Mundo Desconstruído)







(enquanto isto a temperatura lá fora era...)

5 comentários:

Cláudia M. disse...

Cláudia, muito obrigada pela lição de História (adoro História, era a minha 2ª alternativa a seguir à Literatura); eu desconhecia esses acontecimentos. Como portuguesa, só tenho a lamentar a opressão levada a cabo pelos meus antepassados. Mas infelizmente isso aconteceu com tantos povos...
Felizmente que agora somos países irmãos, e tb dou graças por, através das novas tecnologias, já ter conhecido tantas brasileiras super simpáticas, entre as quais você, claro.
As suas fotos estão lindas, como sempre.
Ainda bem que melhorou, continue com toda essa coragem! Bjs

Magia na Cozinha disse...

Claudia que vergonha! Eu não sabia sobre este feriado, mas agora aprendi com vc. Valeu a aula!
Meu marido é carioca e comentou que seria feriado no Rio e eu achei estranho, pois eu não sabia. Não sei se comemoram em Porto Alegre.
Puxa! Ai já está nevando! Aqui está bem frio para a Florida. Este ano desde que começou o outono, ficou frio, vem uma frente fria atrás da outra. Estou até estranahndo...
Que bom que melhoraste! Aguardaremos as receitinhas!
Bjs :)

Heloísa disse...

Claudia,
Realmente o feriado já está quase que nacional.
Contudo, tenho a impressão de que, na maioria dos casos, a data aparece mais com a visão de um dia de lazer, do que de um dia de consciência.
De qualquer forma, penso que deve ter alguma repercussão positiva, principalmente nas escolas comprometidas com a verdade.
beijos

Nina disse...

Viva!

Aqui em Florianópolis não é feriado. Na escola da minha filha não há uma única pessoa negra (alunos ou funcionários).
Passei a manhã de ontem falando com ela sobre Zumbi e igualdade. Ela me olhava perplexa. Nunca passou pela cabecinha dela que pudesse ser de outra forma: ela me disse "mas mãe, o que importa é o que está por dentro!"

Claudia disse...

Cláudia M.
O império colonial português agora é apenas história, ainda bem! Sim, Portugal agora é amigo e somos todos um pouco portugueses de sangue.

Cláudia Lima,
Acho que em Porto deve ser feriado também já que gaúcho é povo engajado. Na Florida já tá frio, nega! E depois o povo diz que o clima está aquecendo (risos)


Helô é importante é celebrar também, fazer festa e lembrar o quanto o esforço feito por uns no passado significa o prazer de outros hoje.

Nina, as crianças são sábias quando nascem e é apenas quando crescem que elas começam a encarar e brigar com os valores que dominam no mundo. A consciência da realidade é uma coisa que precisamos passar de mãe para filha. Mas sua menina está em boas mãos!

Obrigada pela visita garotas!

C.