sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Outono e a minha tristeza



Se eu melhorei de saúde recentemente, se estou muito feliz por estar me sentindo melhor, isto não significa que me livrei da tristeza e do desespero que tanto me atordoaram a existência este último ano. Mas uma outra coisa me causa muita tristeza e me dá desespero: é o começo do outono. O começo da morte, da destruição e motivo de infelicidade. Sou capaz de perceber a excitação e a poesia que algumas pessoas (culturas) vêem no outono, mas percebo de forma artificial, intelectualizada, pois na minha pele outono é dor, é interrupção, é, brasileiramente falando, uma perda de tempo útil.

Povos acostumados ao processo mais intenso das quatro estações sentem uma vontade ou necessidade visceral de parar, de descansar, de se revigorar, de morrer para nascer de novo. Teoreticamente a idéia de morrer para nascer de novo é poderosa. Mas pessoalmente estou pastando para aprender que para saber viver temos que aceitar morrer. Ainda não estou lá. Meu ateísmo galopante me impõe pesadas restrições. Acredito que a vida nos trópicos funciona de outra forma, no entanto não quero de forma alguma discutir um eventual determinismo ambiental da minha parte por aqui. Nem chegar perto de uma discussão qualquer. Não acredito em determinismo ambiental para começo de conversa, sou uma geógrafa na contramão de Ellen Semple.

Esta postagem é mais uma confissão, a exposição em praça pública de mais uma de minhas fraquezas. A verdade é que aqui nesta esquina do planeta eu descobri que tenho a maior dificuldade do mundo de vivenciar a mudança das estaçoes do ano ( é claro que elas são bem mais extremas aqui). As estações do ano aqui na Noruega vão muito além do de qualquer canção do Beto Guedes pode tentar cantar (quem não lembra de 'no inverno te proteger , no verão sair prá pescar, no outono te conhecer, primavera poder gostar' ou de 'quando entrar setembro'...). Sei que é difícil de entender, parece meio imaturo, mas eu odeio outono, muito mais do que eu poderia vir a odiar o inverno. Mas é no inverno que a luz começa a inverter e eu ainda vejo nele uma salvação.

Sou feita de outro material, movida a outra energia, sou solar, sou calor, sou vida em tempo integral. E falando em energia solar, lembrei da música do Milton Nascimento.





Solar
Milton Nascimento e Fernando Brant

Venho do sol
a vida inteira no sol
sou filha da terra do sol
hoje escuro
o meu futuro é luz e calor
De um novo mundo eu sou
e o mundo novo será mais claro
mas é no velho que eu procuro
o jeito mais sábio de usar
a força que o sol me dá
Canto o que eu quero viver
é o sol
somos crianças ao sol
a aprender a viver e sonhar
e o sonho é belo
pois tudo ainda faremos
nada está no lugar
tudo está por pensar
tudo está por criar
Saí de casa para ver outro mundo, conheci
fiz mil amigos na cidade de lá
amigo é o melhor lugar
mas me lembrei do nosso inverno azul
Eu quero é viver o sol
é triste ter pouco sol
é triste não ter o azul todo dia
a nos alegrar
nossa energia solar
irá nos iluminar o caminho.

(letra publicada com ajuda da Nina do blog Menina de Cachos )

Será que ainda preciso dizer mais para explicar o desespero que me dá ao ver o dia clarear as 9:00 e se encerrar as 15:00 em pleno mês de novembro, ver meu jardim inteiro congelado e as árvores cadavéricas. E a coisa ainda vai piorar daqui até o dia 21 de dezembro. Depois de quatro anos em terras Escandinavas confesso que a única coisa que me alegra por aqui esta época do ano são as tangerinas espanholas que já começaram a chegar. E o resto é saudade...




Aí perguntem-me, por que não te mudas daí? Por que não voltas para o Rio? Porque eu não sou sozinha neste mundo, porque existem outras três pessoas que precisam da minha presença por aqui e que, para colaborar com a minha crise pessoal, amam outono e inverno.

Engraçado a coisa dos dias. Quando vivia no Rio eu amava o dia 21 de dezembro mais do que todos os outros dias de dezembro. E eu amo dezembro como um todo. Mas é que esse é o dia mais ou menos oficial do começo do verão no meu hemisfério sul, dia de temperaturas tórridas, de altíssima humidade, de chuvas apocalípticas, de sol de rachar côco, de suar até derreter. Aqui na parte norte do planeta o dia 21 é o dia da virada da luz. Escurece diariamente até este dia e depois, no dia 22 começa a clarear. A coisa da escuridão aqui na Noruega, especialmente em Trondheim, é séria devido a latitude por isso de certa forma todo mundo se alegra com a chegada do dia 21 de dezembro.

4 comentários:

Magia na Cozinha disse...

Claudia é incrível como as pessoas são diferentes! Eu adoro o outono! É minha estação favorita, pois tem manhãs e noites frias e dias frescos.
É quando me sinto em total equilíbrio com a vida e acom a natureza.
Aqui nos EUA, nos lugares frios, é lindo demais ver a mudança das cores. Adoro os cheiros, as comidas, tudo!
Por mim seria outono para sempre!
Não fique triste!
Bjs :)

Claudia disse...

Obrigada, Xará!

Ainda bem que dá e passa!

Claudia

Nina disse...

Deu um nó na garganta este seu post...

beijos!

Heloísa disse...

Claudia,
Só agora estou lendo esse seu post. Não sei como deixei passar.
Imagino o quanto deve ser difícil viver longe das raízes e, ainda por cima, tendo que enfrentar clima tão diferente dos trópicos.
Mas, existe o amor para dar força. E, de uma forma, ou outra, tudo passa. Logo o outono, que tanto a aflige, ficará para trás.
beijo

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