domingo, 2 de novembro de 2008

Rocambole de dois sabores: 'mezzo' goiabada, 'mezzo' doce de leite




Hoje resolvi me jogar num doce simples, simples, simples. Simples que dá gosto. Um doce de todos os dias. Doce de criança, doce da tarde, doce de café da manhã, doce do lanche: o rocambole. Um receita simplória mas cheia de sabor e que marcou a minha vida. Quando eu resolvi começar um blog para falar de comida, de comidas que me matam de saudades do Brasil, o rocambole sempre esteve entre elas. Esta receita tem tudo a ver com os ingredientes, com o poder de um sabor específico, de um ingrediente único e não com técnicas, sabedorias e equipamentos de cozinha. Rocambole tem a ver com o meu Rio e com meu paladar predominantemente caseiro.

O rocambole era e ainda é uma das principais sobremesas da minha mãe. O doce favorito dos meus irmãos, mas tinha que ser sempre de doce de leite. E na minha casa os rocamboles eram sempre de doce de leite. Mas ainda bem que havia o rocambole da avó, da tia, das vizinhas, da mãe dos amigos e por aí vai. E os recheios dos outros variava. Tem rocambole de todos os tipos. Brigadeiro, chocolate, mel, de ovos moles, de bananada, marmelada, de baba de moça e o clássico de goiabada, o meu rocambole favorito.




Rocambole de goiabada tem a ver com o lance todo ao redor da goiaba. Goiaba é talvez a fruta que eu mais comi na vida. A goiabeira era, é, a árvore do quintal no Rio. Difícil imaginar numa cidade com mais de 5 milhões de pessoas casinhas com goiabeiras no quintal. Mas na minha infância, e adolescência, qualquer casinha, de vila ou de rua, com jardim, sem jardim, com quintal, ou sem quintal, tinha pelo menos uma goiabeira. Na estacão da fruta eram sacas e mais sacas de goiabas indo de uma casa para outra. Muito mais do que pitangas, mangas, abacates ou amoras, as goiabas dominavam os quintais. Pessoalmente, adoraria mergulhar na história da goiabeira no Rio de Janeiro, fazer um estudo e descobrir se esta minha tese ainda se confirma.

E goiaba tem que ser vermelha, sempre vermelha, claro. Com aquele cheiro forte e sabor característico é boa para tudo. No verão meu picolé favorito era o de goiaba, da Kibom, que eles ainda produzem. O picolé tinha então uns micro-pedacinhos da fruta. Mas sem dúvida a goiabada é o principal pós-produto da fruta. Amo goiabada e quando eu era criança, seu eu pudesse, teria levado goiabada com pão no merenda da escola todos os dias. Mas minha mãe não deixava e eu levava apenas de vez em quando. (Faço o mesmo hoje, eu não deixo a minha filha Estela levar Nutella, e não goiabada, com pão para a escola todos os dias, mas se eu deixasse ela levaria!)

O meu universo hoje está muito longe de um pé de goiaba. A goiaba que faz um dos melhores sucos do mundo, a goiaba melhor amiga dos intestinos preguiçosos, goiaba que faz a melhor geléia e a goiabada que eu ouço chamar de 'o rei dos doces' do Brasil. É a Julieta, par perfeito do Romeu, o queijo fresco de Minas, o catupiry ou o requeijão.



Eu tinha uma metade de pote de goiabada cremosa de Espírito Santo do Pinhal e queria fazer bom uso de tão raro ingrediente. Um rocambole inteiro só de goiabada não iria agradar já que minha família, para minha grande tristeza, não adora goiabas e goiabada como eu. É complicado entender o sabor da goiaba depois de grande e tão longe dos trópicos. Mesmo quando eu compro um suco Sul Africano de goiaba levíssimo, feito com uma base de suco de uvas verdes, não agrada muito o povo por aqui. Só a comunidade brazuca entende o lance da goiaba!




Como eu também tinha um pote de doce de leite de Minas Gerais, ultra saboroso e também raro, resolvi fazer um rocambole meio goiabada e meio doce de leite. O doce de leite é um sabor mais familiar para as crianças e meu marido. Agrada a todos e não deixa margem para erros. O doce de leite que eu usei é muito mais suave, menos doce, de uma qualidade infinitamente superior aquele da lata de leite condensado cozida. Não dá para comparar doce de leite de tacho com doce de leite de lata cozida! Mas não falta de tu, vai tu mesmo, não?



O rocambole, como disse, é um doce simplíssimo. Massinha de pão de ló, recheio e só. O segredo é o recheio e quanto mais fresco e cremoso melhor.


Rocambole:


Para a massa:
6 ovos
6 colheres de sopa de açúcar
6 colheres de sopa de farinha de trigo
1 colher de chá de essência de baunilha
Pitada de sal

Para o recheio:
300 gramas de goiabada cremosa
300 gramas de doce de leite cremoso

(pode substituir o doce de leite e a goiabada por figada, bananada, marmelada, ovos moles, baba de moça, cocada cremosa ou brigadeiro).

Separar claras e gemas. Bater claras em neve com pitada de sal. Bater gemas com açúcar até dobrar o volume. Misturar claras em neve e gemas batidas e bater um pouco mais. Adicionar a farinha e a baunilha batendo com a mão para não perder o volume. Assar em forma retangular média-grande untada com bastante manteiga e esfarinhada. Assar por 20 minutos a 180C.



Deixar esfriar um pouco e desenformar sobre um pano de cozinha limpo, levemente úmido e forrado por uma camada fina de açúcar. Retirar o casca fina da parte superior do pão de ló, do lado que será coberto com um ou dois recheios diferentes. O doce de leite pode levar uma camada mais grossa de recheio. A goiabada pede uma camada mais fina de recheio devido a consitência mais fina deste doce.

Enrolar cuidadosamente usando o pano de cozinha como apoio. Por fim enrolar o rocambole no pano e deixar descansar por uns 15 minutos antes de retirar o pano e fatiar. Transferir o rocambole para um prato retangular. Cortar ao meio para formar dois rocamboles com sabores diferentes.


Um comentário:

Leonor de Sousa Bastos disse...

Cláudia!!

Mas que nostalgia...regressar aos tempos de infância sabe sempre tão bem!...
Eu sou uma saudosista,adoro ficar a recordar bons momentos, sentir aquele sabor que já não sabe ao mesmo, mas ainda melhor...exagerar, deliciar-me, comover-me e sentir-me inspirada!
Adorei ler o seu post, as recordações do Rio, o cheiro da Goiaba...o rocambole da sua mãe... Eu já comprei algumas Goiabadas, fico encantada com o perfume, sinto que podia ficar a cheira-las todo o dia (só me acontece o mesmo com a rama dos tomates e com maracujás) mas acredito que não tenha chegado nem perto, do cheiro de uma goiabada madura directamente da árvore do quintal.

Esses seus rocambole deviam estar divinos, com sabor a carinho, sabor a delícia e sabor a saudade!

:)

Beijinhos!

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