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sábado, 8 de junho de 2013

Um prato favorito, uma canção e mais uma premiada...



Crianças sempre perguntam qual é meu prato favorito, minha música favorita, meu cantor favorito, minha cidade favorita, meu chocolate favorito, meu livro favorito... eu sempre respondo que é difícil escolher pois a gente muda, os sentimentos mudam e nossa posição em relação as coisas mudam com as nossas mudanças. Assim, o que um dia foi favorito, no outro dia pode enjoar.

Mas ainda assim há alguns favoritos, coisas que não deixam de me tocar profundamente, como uma lata de sardinhas em molho de tomate. Sardinha é um revigorante, eu adoro loucamente e um prato de sardinha é um prazer quase indescritível. Seja em lata, em molho de tomate, em óleo, frita, aberta, fechada, manjubinha e outras mais. Esta semana, estando em casa na hora do almoço, me preparei um dos meus pratos favoritos:

Sardinha em molho de tomate com tomate, cebola e espinafres refogados. A sardinha é em molho de tomate orgânico, o tomate e a cebola também orgânicos e o espinafre do meu jardim, orgânico, naturalmente, e que estava congelados. Agora eu me preparo para colher a safra deste ano...




Outros favoritos? Minha música favorita, ou uma das é A Página do Relâmpago Elétrico Esta canção, acredito eu, é uma escolha geracional, imagem do meu tempo. A mais estranha das vozes, um arranjo ao mesmo tempo rico, confuso, perturbador e estonteante, e uma letra que faz mágica no meu coração. Simplesmente adoro...


Abre a folha do livro
Que eu lhe dou para guardar
E desata o nó dos cinco sentidos
Para se soltar
Que nem o som clareia o céu nem é de manhã
E anda debaixo do chão
Mas avoa que nem asa de avião
Pra rolar e viver levando jeito
De seguir rolando
Que nem canção de amor no firmamento
Que alguém pegou no ar
E depois jogou no mar

Pra viver do outro lado da vida
E saber atravessar
Prosseguir viagem numa garrafa
Onde o mar levar
Que é a luz que vai tescer o motor da lenda
Cruzando o céu do sertão
E um cego canta até arrebentar
O sertão vai virar mar
O mar vai virar sertão
Não ter medo de nenhuma careta
Que pretende assustar
Encontrar o coração do planeta
E mandar parar
Pra dar um tempo de prestar atenção nas coisas
Fazer um minuto de paz
Um silêncio que ninguém esquece mais
Que nem ronco do trovão
Que eu lhe dou para guardar

A paixão é que nem cobra de vidro
E também pode quebrar
Faz o jogo e abre a folha do livro
Apresenta o ás
Pra renascer em cada pedaço que ficou
E o grande amor vai juntar
E é coisa que ninguém separa mais
Que nem ronco de trovão
Que eu lhe dou para guardar


(Beto Guedes & Ronaldo Bastos)




E, continuando com a seleção de comentários premiados, ilustrada por fotos de um dos meus pratos favoritos, a baunilhada de hoje é a Zeni Cabral Lacerda com um comentário bem bacana. O comentário da Zeni fala de cozinha, cheiros, algazarras, prazeres, pequenas coisas e de plantar sementinhas de baunilha no quintal e na vida das pessoas, adorei, adoramos... E aqui está para vocês:


Blogger Zenicabral Lacerda disse...

Adoro cozinha , seus cheiros, a algazarra nos dias de comemorações especiais, o conforto que nos traz nos dias de tristeza e por isso, usaria uma pitada de baunilha na vida daquelas pessoas que não descobriram ainda que os maiores prazeres da vida estão nas pequeninas coisas , tal qual uma sementinha de baunilha. Gosto tanto que tenho um pézinho de baunilha no meu quintal e espero muito que ele floreça!
Zeni Cabral de Lacerda

27 de maio de 2013 19:53


Amanhã eu volto com mais um nome...




sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Uma receita de tagliatelli e um amigo...



Eu nunca gostei de massa, nem mesmo quando era pequena. Minha mãe fazia macarrão mas eu só comia se fosse afogado em muito caldo de feijão. Nunca gostei muito mesmo. Quando viajava com amigos, em acampamentos ou na casa de praia, quando todos se jogavam num prato de miojo ou numa macarronada eu preferia um iogurte ou um pão com manteiga. Massa pronta nunca me interessou, nunca achei interessante. Mas com o passar do tempo duas coisas aconteceram. Primeiro eu conheci um moço italiano, um amigo querido, amigo mesmo. Um artista que trabalhou numa das reformas gráficas da Folha de S.Paulo e que nos anos 90 conquistou o coração de todos nós da redação.



Nosso amigo querido adorava receber os amigos em seu imenso e lindo apartamento na Praça da República, em pleno Centro de São Paulo. No dia do meu primeiro jantar em seu apartamento, ainda na redação, meu amigo me perguntou muito naturalmente: "você gosta de pasta?" E eu respondi: "Não, mas eu como mesmo assim". E meu amigo falou: "você não gosta dessa massa comprada pronta, mas da minha pasta você vai gostar". E eu gostei. Ele fez para um pequeno grupo de amigos, naquela noite, um tagliatelle fresco e serviu com um molho de anchovas e alho. Aquela foi a melhor massa que eu comi na minha vida e ela foi marcante. Por causa daquela noite e daquela massa eu passei a apreciar massa e passei a fazer massa em casa e nunca mais deixei de fazer massa com molho de anxovas e alho.



Meu amigo italiano comandou a reforma gráfica da Folha de S.Paulo, fez montes de outras coisas para imprensa brasileira, casou com uma brasileira linda e teve uma filha linda, linda, linda. Mas, de um dia para o outro, ele foi derrotado por um câncer terrível. Em pouco tempo ele foi levado de nossas vidas para sempre. Meu querido amigo italiano, apaixonado pelo Brasil, por São Paulo, pela vida, pelas pessoas, por comida boa, não teve chance de ver sua linda filha crescer. Ele nos deixou para sempre em 2006, mas sua obra está disponível para todos.





Por influencia dele eu percebi que massa caseira é uma criatura totalmente diferente de massa pronta e desde então eu passei a gostar de fazer e comer massa caseira. Continuo a desgostar de massa pronta. As crianças aqui em casa amam, mas eu não gosto. Até como eventualmente, mas não me agrada. Mas a minha massa, a massa que eu faço a mão, por influencia do meu amigo italiano, eu adoro e cada vez que faço dedico meu esforço e o resultado ao meu amigo. Eu sempre invento maneiras diferentes do servir e de cortar a massa. Mas o tagliatelle é o mais clássico. As crianças, como era de se esperar, gostam de massa com molho de carne e foi assim que eu servi ontem. Fiz uma espécie de ragú com carne e toucinho defumado. Deixei o molho cozinhar em fogo baixo por mais de uma hora e ficou uma maravilha.



Tagliatelle com ragú de carne e toucinho

Para o tagliatelle:

400 gramas de farinha de trigo
4 ovos
2 colheres de sopa de água (opcional, depende da umidade da tua cozinha)

Como

Num pote misture ovos e farinha até forma uma massa macia que degruta totalemnte das mãos e que é muito fácil de abrir. Sove a massa por uns 10 ou 15 minutos e deixe-a descansar por uns 20 minutos. Corte a massa sovada em três partes menores e abra um de cada vez. Abra a massa bem fina, o mais fina que conseguir. Quanto mais fina melhor. Enrole e corte fatias da massa mesmo que de tamanhos irregulares. (Veja as fotos abaixo). Se preferir deixe a massa secar um pouquinho num escosto de cadeira.

Na hora de cozinhar ferva água com sal numa panela grande sobre fogo alto. Quando a água ferver reduza o fogo e adicione a pasta. Quando começar a ferver deixe a massa cozinhar por 2 minutos em água fervendo. Escorra, adicione o molho e sirva imediatamente.





















Ragú com carne e toucinho defumado

(para 4 pessoas)

500 gramas de carne moída com pouca gordura
200 gramas de toucinho picadinho com a faca
1 cebola média picadinha
6 tomates pelados picados
1 cenoura grande ralada
4 dentes de alho ralados
1 copo de vinho branco
sal e pimenta do reino
páprica doce em pó
duas colheres de sopa de azeite de oliva
salsinha picada a gosto
um folha de louro (opcional)
água ou caldo de legumes suficiente para cobrir todos os ingredientes na panela

Como:

Numa panela grande aqueça o azeite. Adicione o toucinho picado e deixe dourar. Adicione a carne e deixe dourar e secar até grudar na panela. Adicione a cebola e o alho ralado e quando começarem a dourar adicione o vinho e deixe dar um boa evaporada. Adicione a cenoura, os tomates, a salsa picada, a água (ou caldo) o sal, a pimenta, a páprica, o louro e deixe ferver. Quando ferver abaixe o fogo bem baixo e deixe cozinhar por cerca 50 minutos ou uma hora até formar um caldo grosso.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Uma máquina nova e macarons para um começo de ano feliz...



Estou com uma máquina de costura nova. Meu mais adorado presente chegou durante o natal mas eu não tive chance de exibir a minha querida preciosidade antes. Foi um presente do Per que me surpreendeu com uma máquina nova enquanto eu fuçava brechós atrás de uma singer usada... Acho que ele cansou da busca e dos meus remendos feitos a mão! Será?



Eu sempre tive máquinas de costura, a primeira eu ganhei da minha avó, uma máquina que tinha sido dela e era antiguinha mas ótima. Mas, metida que sou, quando comecei a ganhar grana comprei uma singer de gabinete poderosa que fazia mil coisas. Quando mudamos para cá eu deixei minha super singer com a minha mãe e ela pouco usa. Como minha máquina é 110W não dá para usar aqui pois tudo na Noruega é 220W e as coisas funcionam bem mal com conversores, uma amiga dos EUA tentou usar conversores em tudo e nada deu muito certo.



Nos últimos dois anos eu estava com uma máquina emprestada de uma amiga. A mãe dela tinha morrido e ela herdou a máquina que era da mãe, mas não tinha onde colocar e como nunca costurava me emprestou. Durante dois anos a máquina ficou aqui em casa, já tinha me esquecido que não era minha. Mas minha amiga mudou-se para Oslo e levou a máquina, claro, uma outra Singer, ainda mais antiga que a da minha avó e super maravilhosa. A melhor máquina que eu já usei na vida, fantástica. Com um design super inteligente como nenhuma outra máquina. Chapei, queria uma igual a da minha amiga, queria uma super singer anos 70 para mim. Mas quem disse que eu achei?




Procuramos em brechós, lojas de usados, na internet e nada. Só encontrei máquinas ruins, caindo aos pedaços e muito velhas. Enquanto eu decidia o que fazer, já que a minha fissura por uma máquina só aumentava, Per comprou uma máquina e me deu de presente de natal. E eu não esperava que ele invadisse minha praia e decidisse comprar uma máquina para mim. Minhas máquinas sou eu quem escolhe e compra, mesmo que ele pague. Dá para sacar?



Mas ele fez isto, ainda que isto não seja coisa que ele normalmente faça. Vamos combinar, homens nórdicos não são invasivos, não resolvem coisas para suas mulheres sem serem solicitados, não compram máquinas de costuras suecas novas enquanto a mulher, do tipo super auto-suficiente, está numa epópeia atrás de uma máquina usada. Mas ganhei uma AEG, sueca, uma marca do grupo Electrolux, também sueco. Fiquei feliz, eu pensava queria uma máquina japonesa carérrima e estava na maior dúvida se continuaria atrás de uma singer. Sou meio embaçada mas Per desembaçou e comprou uma maquininha nova para mim. Amei, não conheço a marca, mas adorei.



Enquanto preparo a festa da pequena, o jantar desta noite e ainda eu leio as intruções da nova máquina. Hoje ainda vou costurar uns saquinhos coloridos de pano para as lembrancinhas das crianças no sábado. Será uma boa estréia para uma máquina de costura nova. Enquanto o último dia do ano se esvai nós ficamos por aqui, nos enchendo de café e macarons franceses que ganhei de uma amiga querida.




Minha amiga passou uma semana em Paris e trouxe-me uma caixa com 12 macarons de tres sabores diferentes, tudo isto porque nós ficamos cuidando da gatinha dela. Ora, ora, se ela soubesse como nós nos divertimos cuidando da gata saberia que eu é que deveria ter assado uns macarons para ela para agradecer o uso da gata para nosso entretenimento e alegria pessoal.




Nada de receitas hoje, começarei o ano com algumas, espero. Apenas imagens de coisas que amo, minha nova máquina de costura e macarons diversos. Lá fora o frio continua, mas aqui dentro o coração e a sala estão bem quentes. Feliz ano novo para todos!!!!

Nos vemos aqui em 2010!

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Romeu e Julieta com farofa de castanha do pará no copo...



Impressionante como a mente dá voltas longas. Ontem e hoje, ao fazer este doce, lembrei muito de fatos e pessoas que eu não vejo há tempos. Primeiro eu lembrei a moça que fazia este delicioso creme de iogurte e queijo com calda suave de goiaba. Este creme eu descobri e comia regularmente nos meus tempos de Folha S.Paulo, quando uma senhorinha adorável aparecia na redação do jornal no final da noite para nos trazer sanduíches, bebidinhas e sobremesas maravilhosas. As noites de sexta feira, durante o "pescoção" ela ocupava as mesas da Ilustrada, ou melhor, da coluna da Joyce, já totalmente vazia aquela altura da noite, com cestas e potes térmicos cheios de delícias para alimentar jornalistas e fotógrafos famintos e exaustos.

Todas as sextas ela (gostaria de publicar seu nome mas fiquei insegura) nos trazia esta deliciosa versão cremosa de goiabada com queijo. Foi com ela, na Folha, que eu provei pela primeira vez esta versão de goiabada com queijo cremoso servido em taça e lindamente travestidos de mousse. Isso foi em 1994, 1995. Aí lembrei que em 1996 eu fiz uma festa de aniversário grande no meu apartamento no bairro do Sumaré, para onde me mudei no começo de 1996. Para a tal festa eu encomendei uma leva do pudim-mousse-creme de queijo com goiabada e ela fez.



A festa foi ótima e hoje virou uma data lendária pois naquela dia, 17 de abril de 1996, dia do meu aniversário e na noite da minha festa, talvez a única festa que eu fiz para mim mesma, ocorreu o cruel massacre de Eldorado de Carajás, no Pará, símbolo maior de tudo o que é ruim e ainda sobrevive no Brasil.

Naqueles dias eu vivia atrás de um moço, um fotógrafo fantástico que então já fazia trabalhos incríveis e viria a fazer outros tantos ainda mais impressionantes. Ele era o convidado especial da festa, ele viria para a festa, nós iríamos ficar juntos e ele iria passar a noite. Mas o inevitável aconteceu. Ainda no começo da noite o jornal ligou, um editor desesperado e ele foi forçado a pegar um vôo fretado de última hora para o longínquo estado do Pará. Naquela noite trágica o meu moço me deixou sozinha para ser o primeiro fotógrafo de São Paulo a chegar ao local da tragédia. Ele conseguiu imagens impressionantes dos corpos massacrados pela Polícia no pequeno posto de saúde que serviu de abrigo para os corpos e a perícia. Aquelas fotos fizeram história.



Impressionante o poder das lembranças. Me perdoem se causei algum constrangimento ao misturar tragédia, com amor e comida. Mas eu sempre ligo as coisas todos e em geral não perco o apetite para nada, nem mesmo diante da violência contra o homem do campo que ainda domina na região amazônica, onde os pequenos são diariamente esmagados pela ambição e crueldade sem limite dos grandes e poderosos senhores de terra modernos. Meu moço, aquele que eu tanto queria em 1996, voltou para SP muitos dias depois, mas nosso romance não foi muito longe. Poucos meses depois ele foi transferido para a Sucursal de Brasília e a coisa foi esfriando.

Ele e aquela senhorinha querida dos doces permanecem como boas lembranças da minha vida. Juntos como este pudim-mousse-creme de queijo com calda de goiaba habitam meu imaginário, são lembranças poderosas. E hoje, cada vez que eu celebro o meu aniversário, eu também celebro o Dia Nacional de Luta pela Reforma Agrária instituído em 2002 pelo presidente FHC em homenagem aos mortos de Eldorado de Carajás. Parece que o meu destino estará para sempre ligado a luta pela reforma agrária, mesmo que eu não fosse uma grande ativista.



Taça de queijo com gelatina de goiabada e farofa de castanha do pará (Brasil)


200 gramas de queijo cremoso
100 gramas de iogurte natural
50 gramas de mel
1 colher de chá de extrato puro de baunilha

Gelatina de goiabada

100 gramas de goiabada cascão
100 ml de água + 2 colheres de sopa para amolecer a gelatina
1 colher de chá de gelatina em pó sem sabor

Separe 4 taças e tire o queijo da geladeira para ficar em temperatura ambiente.

Coloque duas colheres de água num pires e salpique com a gelatina e deixe amolecer. Enquanto isto dissolva a goiabada na água fervente e adicione mais água se necessário, mas adicione aos poucos para não aguar demais a goiabada. Quando a goiabada ferver e derreter totalmente, formando um calda lisa, mas densa, adicione a gelatina e mexa até dissolver totalmente. Coloque a gelatina de goiabada no fundo de 4 taças e leve para gelar.

Quando a gelatina estive levemente endurecida prepare o creme de queijo. Bata com um fouet ou colher de pau o queijo, o iogurte, a baunilha e o mel até formar um creme bem homogêneo, sem pelotas. Distribua nas taças sobre a gelatina de goiaba e leve para gelar por umas 3 a 4 horas. Sirva com farofa de castanha do pará. Se preferir use migalhas de biscoitos que fica ótimo também.

Se usar goiabada com pedaços de goiaba melhor ainda, os pedaços ficarão ótimos na gelatina.


Farofa de castanha do Pará


5 castanhas do pará
1 colheres de sopa de manteiga gelada
2-3 colheres de sopa de açúcar

Triture as castanhas no processador e misture com a manteiga e o açúcar usando as mãos até formar uma farofa. Salpique sobre as taças na hora de servir.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Feliz 200 anos seu Charles...



Hoje, 12 de fevereiro, é aniversário desse senhorzinho de semblante tristinho da foto acima. Se estivesse vivo Charles Darwin completaria hoje 200 anos enquanto o livro mais importante que Darwin escreveu, A Origem das Espécies completará em novembro 150 anos.

Este moço sempre me impressionou, desde os tempos da escola, pois eu sempre gostei de ciências e biologia. Mas foi depois que eu que vi um filme sobre a vida dele (numa dessas mostra de cinema de São Paulo) que eu realmente entendi os dramas que o motivaram.

Charles Darwin foi um cientista moldado em um outro tempo e suas descobertas foram frutos de uma outra realidade científica, sem laboratórios sofisticados ou equipamentos, quando pesquisa era o resultado de observação paciente da natureza e das espécies animais.

Durante cinco anos (1831-1836) Darwin fez uma grande e fundamental viagem a bordo do barco Beagle e visitou o Rio de Janeiro, a Bahia e circulou por diversas localidades no Brasil. A passagem de Darwin pelo Brasil foi muito investigada recentemente e uma série de publicações sobre este período estão disponíveis este ano.



A busca de uma resposta para a origem das espécies, que levaria à teoria da evolução, está totalmente relacionada não apenas aos dramas pessoais de Darwin mas a algumas questões fundamentais que atormentaram as mentes do século 19.

A origem das espécies pela seleção natural, de onde saiu a teoria da evolução, não apenas revolucionou a biologia, mas historicizou a biologia e as principais descobertas de Darwin continuam irrefutáveis.

O editorial de hoje do NYT lembra que Darwin não apresentou uma seleção estática de fórmulas matemáticas mas uma teoria de história da biologia que se passa na própria história e o fato dos detalhes dessa teoria serem alterados a cada momento não invalidam a teoria de Darwin em nenhum momento, pelo contrário, contribuem para exaltar os méritos da teoria da evolução.

Charles Darwin publicou a A Origem das Espécies pela Seleção Natural quando tinha 50 anos, há exatos 150 anos, e a teoria da evolução seleção natural continua hoje como a mais aceita teoria da formação de espécies.

O desenvolvimento de uma teoria como a de Darwin, no exato momento em que ela foi criada, demandava não apenas um cientista detalhista e persistente mas um cientista crítico e insatisfeito, disposto a desafiar o lugar comum das teses religiosas até então dominantes.

Eu poderia ficar aqui até amanhã escrevendo sobre Darwin mas tenho um doce de leite para mexer e tomar conta. Em homenagem a Darwin estou fazendo um doce de leite da forma mais tradicional, observando, mexendo, subindo e abaixando a temperatura do fogo com o máximo cuidado e paciência. Infelizmente o doce de leite ainda não está pronto, mesmo depois de 4 horas no fogo cozinhando, mas eu estou fotografando e anotando todos os detalhes da minha experiência científica culiária a ser publicada por aqui a qualquer momento.

Por hora eu queria era celebrar com vocês a honra que eu tenho de pertencer a mesma espécie que Charles Darwin.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Outro norueguês de ouro... Geir Skeie



Fazia uns dias que eu queria escrever sobre esse moço lindo da foto. Ele se chama Geir Skeie e é o chef vencedor do Bocuse D'Or de 2009. Geir trouxe para a Noruega pela quarta vez o prêmio Bocuse D'Or e o país se mantém como o segundo país (só perde para a França) com mais vitórias neste concurso de culinária francesa.

Geir Skeie, que em 2008 venceu o Bocuse D'Or da Europa, é o chef do restaurante Midtåsen Solvold um restaurante tradicional em Sandefjord, uma cidadezinha ao sul de Oslo. O site do restaurante Midtåsen Solvold é praticamente todo em norueguês e mantém apenas uma pagininha em inglês, mas vale a pena dar uma olhada para conhecer.

A Noruega ficou também, indiretamente, com o Bocuse de Prata pois quem ficou em segundo lugar foi o sueco Jonas Lundgren que até o começo do ano era chef no restaurante Bagatelle em Oslo.


(A celebração da equipe da Noruega depois de receber o prêmio Bocuse D'Or de 2009 em Lyon, na França)

A vitória destes moços é muito bacana pois havia um coro nojento de 'já ganhou' e uma corrente prá frente em torno do concorrente dos EUA, Timothy Hollingsworth, do restaurante French Laundry na Califórnia. O próprio Thomas Keller, criador e chef dos chefs do French Laundry, era o presidente da comissão dos Estados Unidos neste Bocuse D'Or e foi convidado pessoalmente por Paul Bocuse para comandar a comissão de seu país numa cerimônia em Manhattan onde Keller mantém o restaurante Per Se.

Durante a competição que ocorreu entre os dias 27 a 29 de janeiro a cobertura do New York Times do Bocuse D'Or 2009, que eles chamavam de Olimpíadas da Comida, insinuava uma vitória garantida para os EUA. A atitude deslumbrada do jornal é resultado tanto da adoração (por parte dos norteamericanos que se interessam por culinária) pelo Thomas Keller como influenciada pelo fato dos EUA nunca terem investido tanto para vencer uma competição. Para o leitor do NYT a presença de Keller como chefe da comissão americana e o país unido ao redor de Timothy Hollingsworth eram símbolos de vitória.

A cobertura do New York Times ignorou praticamente todos os demais concorrentes, sim eles em geral agem assim mesmo, focando apenas no time dos EUA (alguns vão defender que isso é natural) e no concorrente francês por acreditar que só a comissão da França tinha chances de interromper a festa Californiana. E tudo saiu como deveria: inesperado. O americano e o francês perderam e o norueguês ganhou.


(O caminhão da Noruega que saiu de Sandefjord com uma cozinha idêntica a cozinha da competição recebeu a atenção da imprensa e foi até motivo de piada. Na foto do caminhão Geier segura um peixe, um 'bacalhau'/cod fresco.)

Geir Skeie exibiu coisas lindas e arrasou na competição. Os americanos e o NYT não o acompanharam já que não acompanharam o que estava acontecendo nas outras cozinhas e no final da competição não tinham o que falar sobre o vencedor. Tudo o que saiu no NYT foi o menu criado e servido pelo chef da Noruega.

Mas por que eu me preocupo com uma competição de culinária francesa que não é a única competição de culinária no mundo, e com a cobertura do NYT? Será que é porque eu não tenho nada para fazer? Não. Absolutamente não. É...

1. para mostrar ao meu pequeno público leitor que o NYT informa mal os seus leitores não apresentando ao seu público os concorrentes ao Bocuse D'or, ficou rasgando seda para o Thomas Keller e, além disso, não explicou a vitória de Geir Skeie;

2. e para mostrar que existe um mundo vasto, recheado de talentos e criatividade fora do universo da língua inglesa e, principalmente, fora do circuito Paris-Londres-New York.


(Geir Skeie e seu assistente. Skeie de 28 anos já tinha vencido o Bocuse D'Or Europa em 2008)

Uma vez eu escrevi que acho uma monotonia o mundo culinário da internet em inglês. Apesar da língua inglesa servir de 'língua-veículo', de plataforma de comunicação entre povos e culturas diferentes, o que se vê em inglês não é um universo livre e rico em diversidade e criatividade. O que se vê é muita repetição e um arsenal de obviedades. O que eu vejo e critico é uma submissão ao modelo americano, e de certa forma inglês, de se fazer sites e blogs de comida e à forma como esses povos se relacionam com a comida de uma maneira geral. Este modelo dominante que vem sendo apresentado e 'vendido' através da internet, apesar de ser muito bonitinho e de se vender muito bem, não é o que há de mais interessante para se ver e comer neste mundo. O nosso planetinha é bem maior e bem mais interessante do que a internet de língua inglesa pode exibir.

Na minha opinião a internet em português, ou em espanhol por exemplo, é muito mais rica e instigante do que a internet de língua inglesa. Um milhão de anos mais original e autêntica. Nem tudo, claro. Não acho que ser autêntico seja um adjetivo fundamental. Para mim ser diverso e ser criativo é muito mais fundamental. Em todas as línguas e em todas as culturas existem talentos e coisas legais para se ver e comer e o planeta está aí mesmo para nos surpreender e revelar os talentos escondidos em seus quatro cantos.

O que para uns foi decepção, para outros foi confirmação. A vitória de Geir também justificou o imenso esforço da Noruega na competição e o famoso caminhão foi apenas um exemplo disso. O melhor de tudo é que eu e Per já planejamos visitar o Midtåsen Solvold em abril ou quando o clima desgraçado daqui melhorar. Duas amigas e uma irmã do Per moram na cidade vizinha a Sandefjord, em Larvik, e combinamos ir visitar este ano de qualquer jeito. Pagaremos NOK $1.100 (mil e cem coroas norueguesas correspondem a mais ou menos R$ 350,00) por pessoa pelos 8 pratos da refeição principal com felicidade!!!


(O sueco Jonas Lundgren que ficou em segundo lugar. Lundgren atualmente trabalha em Oslo mas já trabalhou para o americano Thomas Keller no French Laundry).

Todas as fotos foram reproduzidas do site do Bocuse D'Or e do site/blog de Geir Skeier.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Moços emocinantes e creme cozido com iogurte e mel


Fazia um tempo que Per e eu não íamos ao cinema sozinhos. A vida com duas crianças aqui na Noruega, longe da família, não cria muitas oportunidades para sairmos sozinhos. Uma vez ou outra aparece uma chance de sairmos sozinhos. Quando rola é sempre meio por acaso e nós não temos nada planejado para fazer. Nestas ocasiões o que sempre fazemos é jantar fora e ir cinema. Mas já está de bom tamanho para um casal que nunca saí sozinho, não é mesmo? Fomos ao cinema num daqueles centros de exibição com 10 salas e em geral 10 opções diferentes de filmes.

Eu cheguei no local totalmente desorientada, sem ter a menor idéia do que eu queria ver nem do estava passando em Trondheim. Falei: vamos ver Vicky Cristina Barcelona ( só o que me veio a cabeça foi Woody Allen). Mas claro que Vicky Cristina Barcelona já tinha ido embora de Trondheim faz tempo, agora para mim só em DVD. E o que ver então? O Per queria ver, eu já sabia, Revolutionary Road, o filme com o Di Caprio e a Kate Winslet. Já que não tinha mais Woody Allen com Javier Bardem eu pensei em 'en julfortelling' ('a história de um natal') um filme francês com a Catherine Deneuve. Tinha uns quatro filmes franceses em cartaz e um outro francês que parecia interessante era 'klassen' (a classe).

Atores e atrizes são a atração de um filme, não? A Catherine Deneuve, por exemplo, me leva a ver qualquer filme. Gosto muito de ver filmes com um rosto familiar, com alguém com quem me identifico, que amo. Sim, eu amo alguns atores de cinema, em geral homens. E ontem a seleção de moços não era das mais interessantes (de acordo com esta que vos escreve). Até que eu percebi, vendo os telões com os trailers dos filmes em cartaz, que o filme que eu queria ver não estava passando ali naquele cinema, mas num outro da mesma rede não muito longe dali. Como Per é um cavalheiro, um homem super paciente e generoso, na hora foi buscar o carro (já devidamente estacionado) para irmos ao outro cinema ver o filme com o ator que eu adoro.
O ator em questão é o noruegues Bjørn Sundquist (na foto de cima com cigarro), um ator de teatro que me seduziu totalmente em vários filmes antigos e em uma série de televisão fantástica. O cara é uma espécie de medalhão do teatro nacional da Noruega. Bjørn Sundquist é premiadíssimo no teatro, faz muito cinema e as vezes televisão. Eu me apaixonei por ele principalmente depois da série de TV Berlinerpoplene e do filme O Telegrafista. Minha paixão por Bjørn Sundquist se encaixa totalmente no meu estilo preferido: homens comuns, com rostos comuns, vividos e sofridos. Combina totalmente sentido com minhas outras duas paixões: Bruno Ganz (na foto a esquerda de chapeu) e Marcello Mastroianni (na foto abaixo). Eles até que se parecem. Eu vejo grande semelhança nos narizes e os olhares.
Olhem com cuidado as fotos para perceber que os rostos destes moços meio que se parecem. Além disso eles são todos talentosíssimos e conseguem me emocionar profundamente com a arte deles. E fomos ao outro cinema e Per perguntou se era aquele filme mesmo que eu queria ver. E eu, sim, claro. Um filme noruegues no cinema é sempre um desafio já que filme noruegues na Noruega é sem legendas em qualquer língua e isso representa sempre um desafio para mim. Quando vemos em casa acionamos a famosa tecla sap e tem sempre legenda para eu ler o noruegues. Explico, leio bem em noruegues mas tenho uma grande dificuldade para entender quando eles falam. É uma língua com muitas sonoridades diferentes e com formas regionais diferenciadas. Enfim, uma língua muito difícil de entender quando eles falam entre eles.
Como falei, as opções de moços em exibição no cinema eram variadas, Leonardo e Kate, Hugh Jackman e Nicole (naquele filme assustador Australia que só de ver o trailer com aquela motanha de cenas clichês dá enjôo), Colin Farrell numa comédia, John Malkovitch com Angelina Jolie, Jim Carrey, Brad Pitt e Cate Blanchet no tal Benjamim Button, os jovens vampirinhos, o ratinho Desperaux, uns 3 ou 4 filmes franceses e o Phillip Hoffman Seymour (de padre) com a Meryl Streep, um outro norueguês Max Manus sobre o período em que a Noruega esteve ocupada pelos nazistas alemães e montes de outras bobeiras. Passei por todos eles sem piscar. Fomos ver Mr. Bjørn Sundquist e seu Jernanger. Este era o filme da semana que tinha estreiado no dia anterior e estava inclusive na capa da revista da programação de cinema. Um filme bem meu estilo. Uma mistura de 'Segunda-feiras ao sol' com 'Olhos Negros', sabe como é? É que a comédia-dramática norueguesa tem um tanto de melo-drama espanhol e um tantão do senso de humor negro russo. Precisa ler muito Ibsen para entender o senso de humor e de tragédia desta gente nórdica, mas Ibsen sem dúvida descreve seu povo muito bem.

Jernanger é o nome do barco do personagem de Bjørn Sundquist, Eivind, um homem norueguês do mar, um Sami do norte da Noruega. Eivind deixou para trás, no norte, seu povo e o amor da vida dele. Ele nunca superou a perda do amor e, depois de 30 anos, tem uma nova chance de ser feliz e estraga tudo. No meio de tudo ele encontra por acaso um moço novo, de 25 anos, que de certa forma está repetindo a história de Eivind, deixando para trás o amor da vida dele para sair pelo mundo de navio. Eles se ajudam e se salvam. No final, depois de algumas reviravoltas, risadas e choros as coisas mudam para o jovem mas estão definitivamente perdidas para Eivind. O filme é muito lindo. O personagem principal é um norueguês 'puro', extremamente apaixonante interpretado magistralmente por Bjørn Sundquist.

Jernanger é um filme super emocionante. Sem sombra de dúvida muito melhor do que todos os outros que estavam passando nas demais salas. No entanto, Bjørn Sundquist em Jernanger muito provavelmente nunca vai aportar no cinema mais próximo de você. Ficará restrito ao público de festivais e ao público escandinavo. Uma pena, pois mas a maioria de nós vai ver, ou vai ao menos ouvir falar, de todas as bobagens feitas pelo cinema comercial dos EUA. E ver o cinema dos EUA é para mim como deixar de comer um doce feito com a fruta fresca para comer outro feito com aroma artificial da mesma fruta. Não se compara com as histórias dos cinemas de verdade. Veja o trailer de Jernanger



Chegamos em casa cedo e para nossa alegria tinha creme cozido (panna cotta) já gelado pronto para comer. Bastou colocar um fiozinho de mel e decorar com as últimas cerejas da festa argentina.

Creme cozido com iogurte e mel

2 xícaras de iogurte natural (integral ou desnatado)
2 xícaras de creme de leite
1/2 xícara de mel
1/2 xícara de açúcar
1/2 xícara de água
4 colheres de chá de gelatina em pó (calcule uma colher para cada xícara de líquido)
Raspas de uma fava de baunilha (ou 1 colher de chá de essência)

Como:

Misturar o creme, o açúcar e as raspas de baunilha numa panelinha e levar ao fogo médio. Se for usar baunilha em essência misturar ao iogurte no final. Mexer o creme até ferver. Retire do fogo e deixe de lado. Num potinho amoleça a gelatina em pó na água. Adicione a gelatina amolecida à mistura de creme de leite e leve ao fogo novamente mexendo sempre até derreter a gelatina totalmente. Retire do fogo. Num pote misture o mel ao iogurte até incorporar totalmente. Misture o creme à mistura de iogurte e mel até incorporar totalmente. Divida os cremes em potinhos e leve para gelar. Servir acompanhado com mel ou calda de frutas.

(Panna cotta com calda de cerejas)

Adaptado de uma receita de Martinha que pode ser lida em inglês veja aqui

Fotos de divulgação do filme Jernanger têm reprodução livre. Foto de Bruno Ganz é uma foto de divulgação do filme Vitus. Foto de Marcello Mastroianni também é uma foto de divulgação do filme Olhos Negros.