sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Orgânicos e a agricultura familiar, um texto que eu estava devendo...

Horta orgânica em município do Estado do Rio Grande do Norte


Faz tempo que eu venho ensaiando um texto sobre alimentos orgânicos que possa servir de referência para autores de blogs e sites em língua portuguesa interessados na questão da produção de alimentos orgânicos e este aqui é o primeiro de uma série de pequenos artigos que virão onde eu pretendo tocar nas muitas questões que circundam o tema "alimentos orgânicos". Eu tropeço no tópico "orgânicos" em todos os cantos da internet mas encontro muitos problemas em quase todos. É que ao mesmo tempo em que se fala muito de produtos orgânicos há muitas informações erradas, simplórias e até mesmo contraditórias e o assunto permanece pouco claro.

As informações divulgadas através da grande imprensa são, na maior parte das vezes, ainda piores pois além de extremamente parciais são repletas de preconceitos e juízos de valor fato que não ajuda ninguém a entender os benefícios da agricultura orgânica. De uma maneira geral o grande público concorda que a agricultura orgânica é melhor do que a agricultura convencional, mas não sabe dizer porque. Durante muito tempo os benefícios da agricultura orgânica apareciam apenas quando a grande imprensa relatava os perigos e o excessivo uso de agrotóxicos nos alimentos agrícolas.

Filhos de agricultores familiares da comunidade rural de Teixeira, no município sertanejo de Rafael Godeiro (RN), cultivam horta agroecológica e sentem orgulho de viver no campo.


As coisas funcionam mais ou menos assim, o povo ouve falar da agricultura orgânica (hoje em dia mais do que nunca) mas continua sem saber bem do que se trata exatamente e quais são os benefícios desse tipo de agricultura. Quando a pessoa vai ao mercado atrás dos alimentos orgânicos a primeira coisa que chama atenção é o preço desses alimentos e muita gente não ultrapassa a barreira dos preços, ou seja, não dão uma chance real aos orgânicos pelo simples fato deles custarem mais caros do que os produtos convencionais. A alienação continua em função da barreira do preço.

Por causa do preço, que na realidade não é mais alto na maior parte do país, o grande público continua a desconhecer os benefícios e, até mesmo, a definição de agricultura orgânica. Explicando orgânico é o sistema de produção agrícola que exclui o uso de aditivos agrícolas, i.e. fertilizantes sintéticos, agrotóxicos diversos, pesticidas e aditivos alimentares sintéticos para animais. A agricultura orgânica baseia-se no uso de estercos animais e matérias orgânicas no lugar de fertilizantes e adota práticas como a rotação de culturas, compostagem, controle de pragas e doenças através da harmonização de culturas. Por exemplo, no caso do algodão orgânico cultivado em determinadas regiões do Brasil a colheita é protegida contra pragas com a plantação de diversos tipos de legumes ao longo dos pés de algodão que protegem contra grande parte das pragas.


Jovens do assentamento Ursulina, na zona rural do município de Caraúbas (RN), cuidam do viveiro de mudas implantado a partir das ações financiadas pela Diaconia, União Européia e Tearfund.

Os motivos mais comuns que levam ao consumo de alimentos orgânicos são as características desses alimentos, muito mais saudáveis do que os alimentos produzidos pela agricultura convencional pelo fato de serem livres de agrotóxicos e agentes químicos. Não que uma laranja orgânica tenha mais vitamina C do que uma laranja convencional. O poder nutritivo não se altera, mas a qualidade sim, já que o produto orgânico é mais saudável para consumo por estar livre de aditivos químicos. Um outro fator importante em relação aos alimentos orgânicos é que eles são produzidos de forma ecológica e muito menos danosa à natureza já que os dejetos da agricultura convencional poluem rios e outras fontes de recursos hídricos e contribuirem para o aquecimento global sendo a agricultura convencional a principal emissora do dióxido de nitrogênio na atmosfera.

Mas na minha opinião há no Brasil um motivo ainda mais importante para justifica o consumo de produtos orgânicos, o fato de 80% da agricultura orgânica brasileira ser produzida pelas pequenas propriedades de agricultura familiar. O aumento no consumo de orgânicos é uma forma direta de apoio à agricultura familiar apoio esse que é fundamental para a sobrevivência da agricultura familiar um setor extremamente importante no desenvolvimento sustentável do Brasil e para o desenvolvimento de um país mais justo. Por trás do sucesso da agricultura familiar estará uma sociedade muito mais justa e feliz. A valorização da agricultura familiar contribui é uma forma de defesa da vida como um todo já que a valorização das pequenas propriedades de agricultura familiar e orgânica contribui para a melhoria da vida no campo, a valorização da vida nas áreas rurais do país, contribui para a fixação das famílias no campo, desestimula a migração que causa o inchamento das cidades e a consequente concentração de terras nas áreas rurais de todas as regiões do país.

Hortaliças agroecológicas cultivadas por jovens da comunidade Teixeira, no município de Rafael Godeiro, reforçam alimentação da família e servem de motivo para permanência do jovem no campo.

De acordo com cientistas da Embrapa e dados da Pastoral da Terra a agricultura familiar é hoje o setor mais produtivo e mais ameaçado da agricultura brasileira. Para se ter uma idéia, o censo agropecuário publicado pelo IBGE em 2008 mostrou que apesar de deter apenas 24,3% da área agrícola brasileira, a agricultura familiar é responsável por 87% da produção nacional de mandioca, 70% da produção de feijão, 46% do milho, 38% do café, 34% do arroz, 58% do leite, 59% do gado suíno, 50% das aves, 30% dos bovinos e 21% do trigo. A cultura com menor participação da agricultura familiar no censo de 2008, como era de se esperar é a soja (16%) produto símbolo das grandes empresas do agronegócio. E, como mencionei acima, agricultura familiar é responsável por 80% da produção orgânica e responde por 10% do PIB nacional.

Além de produzir em uma reduzida área, a agricultura familiar ainda recebe um volume muito pequeno de recursos públicos. De acordo com a Pastoral da Terra, em 2008 a agricultura familiar recebeu 13 bilhões de reais enquanto o agronegócio abocanhou cerca de R$100 bilhões de reais. Sem apoio ostensivo do governo a agricultura familiar e orgânica vai permanecer pobre e marginal apesar de sua importância, seu peso econômico, seu papel social e dos benefícios que a produção agrícola sustentada oferece a toda população. Além disso a agricultura familiar é a principal geradora de empregos no campo.

Feira orgânica organizada pelo PAAF (Programa de Apoio a Agricultura Familiar)


A medida que a agricultura familiar perde espaço aumenta a concentração da terra, as fazendas comerciais e a expansão do agronegócio levando a degradação das condições de vida dos trabalhadores do campo já que as grandes unidades do agronegócio concentram os casos de exploração de trabalho escravo e as péssimas condições de trabalho.


Para Malvezzi, da Pastoral da Terra, " saber produzir comida é uma arte... o Brasil ainda tem agricultores que detém a arte de plantar e produzir comida. No norte e no nordeste são mais as tradições negra e indígena. No sul e no sudeste mais a tradição européia de italianos, alemães, polacos etc. É preciso ainda considerar a presença japonesa na produção de hortifrutigranjeiros nos cinturões das grandes cidades. Preservar esses agricultores é preservar o "saber fazer" de produtos alimentares. Se um dia eles desaparecerem, o povo brasileiro na sua totalidade sofrerá com essa ausência".


Curso de apicultura orgânica para agricultores que participam do PAAF no Estado do Rio Grande do Norte


Para que a agricultura familiar continue a crescer é fundamental a ajuda de todos nós. Por isto compre alimentos orgânicos, se você já compra de vez em quando passe a comprar regularmente, cheque a origem e pague por eles pensando que está ajudando a construir um Brasil melhor, mais justo. Se você costuma ir ao supermercado passse a frequentar os mercados dos produtores, os horti-frutis abastecidos pelos produtores rurais da agricultura familiar, os sacolões e feiras livres. Evite frutas e legumes de supermercados, quando você protege a agricultura familiar do Brasil você está protegendo a produção agrícola artesanal, a vida no campo, os produtos orgânicos e a sua saúde física. Vamos proteger a agricultura familiar brasileira e para isto precisamos fazer a nossa parte, não apenas esperar que políticas públicas e que os políticos defendam a pequena agricultura. Devemos agir e cobrar medidas de proteção e estímula a agricultura orgânica familiar, mesmo que seja através do subsídio como é feito nos EUA e em toda a Europa.

Para concluir eu gostaria de frisar que me entristece imensamente ler em determinados blogs e sites brasileiros texto onde as pessoas reclamam dos altos preços dos produtos orgânicos em São Paulo e no Rio de Janeiro por exemplo. Eu não veria nenhum problemas se essas mesmas pessoas não gostassem de exibir em seus blogs e sites livros, equipamentos e produtos alimentícios importados caríssimos. Acho que um pouquinho de consciência e de inteligência nessa hora faz bem para a saúde e o paladar de todo mundo. Tudo é uma questão de prioridades, algumas pessoas ainda consideram mais importante exibir equipamentos importados e cozinhar com frutinhas importadas a pagar um pouco mais e servir em casa comida orgânica produzida pelo setor mais importante da economia brasileira, nossas micro, pequenas e médias propriedades de agricultura orgânica familiar.

Gostaria de lembrar que eu escrevo com os olhos voltados para o Brasil e público brasileiro, tendo em vista a realidade da economia e da sociedade brasileira. Mas espero poder contribuir para o público interessado nessas questão fora do Brasil, em Portugal, Angola, Moçambique e os demais países de língua portuguesa.

José Ribamar, agricultor familiar do município de Dr. Severiano, na região semi-árida do Rio Grande do Norte, usa água da cisterna para aguar a horta no quintal de casa e para as galinhas.

Fotos do PAAF(Programa de Apoio à Agricultura Familiar) da ONG Diaconia.

15 comentários:

gasparzinha disse...

Cláudia, parabéns pelo texto!
Li de fio a pavio e partilho contigo esta forma de pensar.
Principalmente o parágrafo a bold...

Aguardo a os próximos capítulos.

Beijinhos. :)

prosasdeoutono disse...

Olá Claudia,
Apesar de viver aqui em Portugal, gosto de ler teus textos , e este em particular pois também aqui tenho minha pequena horta...apenas me faltam as galinhas que mais dia menos dia, terei de comprar.
Beijinhos
Alex

Claudia disse...

Gasparzinha,

Que bom saber que você é uma das nossas. Vou continuar com estas postagens pois esse assunto é super amplo já que o setor de alimentos é uma grande indústria no mundo todo e envolve tantos aspectos que é importante mencionar de tudo um pouco.

Alex,

É uma delícia cuidar da própria horta, aqui infelizmente eu só posso fazer isto 3 a 4 meses por ano, de resto é frio, gelo e neve. Galinhas então, se eu pudesse, mas tenho que fazer galinheiro aquecido para as pobres não morrer de frio e não colocarem ovos congelados (risos). Mas seria um sonho, sou louca por ovos...

Beijos,

C.

Gina disse...

Cláudia, esse assunto vai longe...
Estou tão fascinada pelas nossas frutinhas, que não dá pra comprar mirtilos a um preço exorbitante. Até me entusiasmo por provar novos sabores, pra preparar um prato típico de algum país e pra estabelecer esse viés cultural que gosto de dar ao blog. São muitas as nuances que a culinária nos permite.
Se pudesse, faria como a Neide, estaria sempre viajando pra conhecer de perto quanta coisa maravilhosa nós temos. Embora não precise ir longe pra encontrar tudo de bom que a agricultura familiar nos oferece. Tenho me antenado muito com isso e preciso pesquisar ainda mais.
Acho que vamos trocar muitas figurinhas sobre esse assunto.
Beijos, querida!

Canela disse...

Claudia
Este tema sempre me interessou e admiro a forma como defende esta causa neste texto.
Eu fui educada assim,o meu pai já desaparecido era um defensor dos produtos biologicos,sem pesticidas e quimicos ele proprio produzia vegetais e frutas dessa forma.
Nunca olho ao preço destes produtos,pois sinto-me bem a comprá-los,sei que incentivo os produtores e a minha familia come de forma saudavel.Mas infelizmente resume-se a educação e prioridades,como frisa.Espero que as novas gerações sejam sensibilizadas para este problema.
Beijo

Dani disse...

Isso mesmo. Eu SEMPRE procuro comprar os produtos orgânicos. Enfim, não ando nada abonada, mas gastar uns centavos a mais não me apoquenta nem um pouco, porque se há uma coisa em que economia pode custar caro é comida - para os que têm a opção, claro, porque muitos não a têm. Tento sempre comprar o máximo de orgânicos ou os de comércio justo. Mesmo aqui, onde o poder aquisitivo é teoricamente maior, há gente que acha isto "frescura", porque não sentem grande diferença no "sabor" das coisas. Isso me irrita muito, primeiro, porque o paladar destes reclamões nem é lá dos mais apurados e, segundo, porque não compreendem que a coisa toda transcende o sabor (que mesmo assim, é muito MELHOR).
O namorado, que vivia de congelados e comida em lata, hoje quando me vê pegando as coisas no mercado, pergunta: mas não tem do orgânico? Porque às vezes não há mesmo.
Aqui há os "farmers markets", mas confesso que não frequento muito, porque não são toda semana e não há em minha "cidade". Ir à feira semanalmente era um hábito da minha mãe que adoraria reproduzir, mas estou mesmo muito restrita aos supermercados, infelizmente.
Ótimo texto!
Beijocas

Tatiana disse...

Cláudia adorei o texto! Parabéns!
Peço permissão para divulgá-lo em meu blog (com o link da sua postagem).

Eu compro sempre produtos orgânicos, principalmente tomate e batata que tem um senhor do meu prédio que produz no sítio dele (ele cedeu parte da terra para a comunidade local plantar), mas confesso que já deixei de comprar por conta do preço. Seu texto me fez sentir vergonha da minha atitude e com certeza irá mudar algumas atitudes minhas e de outras pessoas.

Parabéns pela iniciativa!!!
Bjs

Isabel disse...

Cláudia,
o seu texto é muito bom e concordo com tudo o que você falou. Podemos aplica-lo a Portugal também. Os campos estão a ficar abandonados, e as cidades superlotadas de gente, porque as pessoas já não conseguem trabalhar na agricultura. A Política Agrícola da UE só é boa para alguns países, como a França e a Alemanha, para nós foi a pior coisa que poderia ter acontecido.
Infelizmente o mercado orgânico que eu conheço fica bem longe da minha casa, não dá para ir sempre.
Amei as fotos, ando tão saudosa da vida do campo que gostaria de entrar nessas fotos e ficar lá por algum tempo, cultivando produtos orgânicos! Elas transmitem felicidade e harmonia com a natureza. Força para os trabalhadores brasileiros!
Bjs

Tangerina disse...

Claudia, Adoro a forma como você escreve e gostei deste seu texto em particular.
Há já alguns anos que tento comprar apenas frutas e verduras organicas (aqui em Portugal diz-se "Biológicas") é verdade que são mais caras mas se for directamente no productor não são tão mais caras assim e o que se ganha em sabor não tem comparação.

Beijinhos,
Carlota

Larissa disse...

Bem, o que eu posso dizer de seu texto? Perfeito... ainda bem que você ensaiou bastante para escrever sobre o assunto, pois não faltou nada. Em nome dos adeptos aos alimentos orgânicos como um todo, meu mutio obrigada. Bjs e boa semana... Larissa

cacahuete disse...

Excelente texto. Onde foca pontos muito importantes para a compreensão do verdadeiro significado da palavra orgânico, o que significa, implica e contribui. Fico a aguardar os próximos capitulos e tenho a certeza que viram com informações preciosas.

Bjs

VOVÓ CRISTINA disse...

Obrigada por tantos esclarecimentos, o texto está perfeito. Estamos juntos nessa. Precisamos conscientizar a população do planeta que a cada gesto é uma conquista e se cada um fizer a sua parte já está colaborando para um TODO melhor. Bjs.

Moira disse...

Cláudia,
Eu sempre que posso utilizo produtos biológicos, por duas razões a primeira porque os alimentos têm um sabor mais genuíno e depois porque sei que estou a apoiar um pequeno comércio que na maioria das vezes é elementar para o desenvolvimento de uma determinada região.
Tenho pena que os agricultores portugueses não façam como os franceses, que pelas várias cidades e regiões de França todas as 4ª feiras há uma feira em que os pequenos agricultores vendem os seus produtos. Recordo-me de comprar por lá uns morangos que cheguei até eles pelo cheiro que exalavam, talvez os melhores morangos que comi em toda a minha vida.
Por cá cada vez mais os campos estão ao abandono :(
Parabéns pelo magnifico texto.
Beijos
Moira

Nina disse...

Claudia,

Esse é um assunto que me interessa MUITO!
Parabéns pelo post.
Além de consumir alimentos orgânicos, conheço algumas experiências bem sucedidas na área, que acredito ser uma das saídas para a retomada da agricultura familiar em pequenas propriedades na região onde moro (Vale do Paraíba).

beijo grande e parabéns de novo!

Eu Mulher disse...

É por esse e outros textos que adoro o seu blog.

Procuro comprar sempre produtos orgânicos aqui em Natal. Eu já nem reclamo dos preços e sim da qualidade dos produtos que eles (supermercados) vendem.

Eu gostaria muito de saber onde comprar diretamente do produtor, tudo fresquinho e bem cuidado. Diferente dos supermercados que não tratam das folhagens e querem vender de qualquer jeito.

Beijos e parabéns pela postagem!

Obs: Veja lá no meu blog nossa brincadeira do amigo secreto na blogosfera. Será um prazer ter sua participação!

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