segunda-feira, 27 de julho de 2009

Muitos bolinhos para celebrar...



No sábado celebramos os 85 anos do meu sogro. O aniversário dele foi em abril e uma grande festa tinha sido planejada para a semana do aniversário com todos os netos e filhas espalhados pelo país. Mas eles ficaram doentes, os dois, meu sogro e minha sogra estavam bem caidinhos e a festa foi adiada para sábado. Foi uma versão mais simplificada que incluiu almoço num restaurante aqui do bairro que nós gostamos muito e depois teve café com bolos aqui em casa depois do almoço.



Recebemos em casa 20 pessoas, sendo quatro crianças. Minha cunhada trouxe um bolo grande delicioso de amendoas com chocolate e creme de baunilha (sem fotos) que eu adorei. Eu servi financiers de framboesa, bolinhos de mirtilos e uma falsa panna cotta de baunilha servida em potinhos bem pequenos, de 100ml, com groselhas ou calda de morangos silvestres (do jardim). Das vinte paninhas sobraram três que foram fotografadas ontem. Elas não são panna cottas verdadeira já que eu não uso mais creme de leite. Uso leite e iogurte (veja a receita abaixo).



Abusei das frutas do jardim. Uma festa em julho dá para abusar e economizar muito já que a produção doméstica e orgânica sai bem baratinha. Além disso dos meus docinhos o Per fez waffles, uma paixão norueguesa, que foram servidos com uma seleção de geléias feitas em casa: morangos do jardim, framboesas do jardim, mirtilos da floresta aqui ao lado, pêssego espanhóis e chocolate com banana do Equador. O povo não acreditou na mesa preparada em uma manhã. Na verdade foi tudo muito rápido e simples. A massa do financiers foi feita no dia anterior e passou a noite na geladeira. Depois do café da manhã assei os financiers. Enquanto eles assavam preparei a massa dos bolinhos de mirtilos. Antes do meio dia estavam assados. Foi só cozinhar o leite para fazer as paninhas, decisão de última hora, e deixar gelar. Estavam no ponto na hora que foram servidas.



A mesa do almoço estava reservada para as 16:00 e as 18:00 o povo todo já estava aqui em casa. Chegaram de estômagos cheios e enquanto bebiam café eu botei os doces na mesa. Maior tranaquilidade quando tudo já está pronto. Até os waffles estavam prontos, aguardando no forno. Foi aquecer, colocar as geléias em tacinhas de vidro e sevir. Comemos, comemos e comemos. Todos super felizes. Chovia muito lá fora mas o dia estava com uma luz linda.



Foi um dia maravilhoso, sem estresse ou preocupação. Eu relaxei totalmente e falei norueguês como nunca. Sempre falo norueguês com os meus sogros pois eles não falam inglês, mas minhas cunhadas sempre falaram inglês comigo. No entanto, como fazia um certo tempo que eu não via duas delas (são três cunhadas ao todo) que moram em Oslo, elas não deixaram por menos, só falaram norueguês. E haja cérebro para tanto norueguês. É uma língua muito difícil pois existe uma versão meio oficial que a gente aprende na escola, uma segunda versão usada no Oeste da Noruega apenas e centenas de dialetos que são versões da língua falada, todos com sonoridades diferentes. Cada dialeto norueguês tem uma música diferente, uns comem palavras, outros misturam, as pronuncias são diferentes e entender o que eles falam pode ser muito difícil. Mas como eu falo o norueguês de Oslo, o norueguês dito oficial (bokmål) eu entendo bem asminhas cunhadas pelo menos.



Queria preparar uma tarde assim para a minha família. Receber meus irmãos, minhas cunhadas queridas, meus sobrinhos e meus pais para uma seleção de delícias. A dor de não poder estar com eles não me deixa nem um minuto. Eu aproveito sempre que posso a família do Per, eu adoro família e não perco uma chance de celebrar a nossa.



Sobre os bolinhos, a verdade deve ser dita. Os bolinhos de mirtilos ficaram muito mais bonitos e mais gostosos do que o normal. É que o resultado dos bolinhos feitos com mirtilos frescos é bem melhor do que feito com mirtilos congelados. O bolo de baunilha mantém-se branco e as frutas permanecem intactas. A mesma coisa com as framboesas dos financiers. As framboesas também ficam intactas e o bolo fica mais interessante, sem buraco no meio. Eu costumo congelar um grande parte das frutas que colhemos durante o verão e as frutas congeladas explodem, misturam-se a massa e formam um redemoinho de cores. Fica bonito, como o tal mármore azul, mas eu prefiro o resultado que obtive ontem.



As falsas paninhas, falsas pois não levam creme, foram servidas em potinhos pequenininhos que tinha comprado na liquidação de um loja indiana mas nunca tinha usado. Eu comprei duas dúzias no ano passado (a preço de bananas) pensando em fazer versões mirins de creminhos mas até então ainda não tinha experimentado os potinhos.



Com a calda feita de moraguinhos silvestres, dulcíssimos...



As falsas paninhas ficaram assim no final...



Falsa panna cotta de leite e iogurte


500 ml de iogurte natural integral
500 ml de leite desnatado + 4 colheres de sopa para amolecer a gelatina
raspas de uma fava de baunilha (ou 10 ml/duas colheres de chá de extrato)
6 colheres de sopa de açúcar
4 colheres de chá de gelatina em pó sem sabor (ou 4 folhas)

Como:

Coloque o leite com o açúcar e a baunilha (se for usar extrato adicione-o ao iogurte no final) numa panela de fundo grosso e em cozinhe em fogo médio, mexendo, até ferver. Num pratinho amoleça a gelatina nas 4 colheres de leite frio. Quando o leite ferver adicione a gelatina ao leite e misture bem para dissolver a gelatina totalmente. Leve novamente so fogo até dar uma segunda fervida. Transfira o leite com a gelatina para um pote de vidro e deixe esfriar até atingir a temperatura do corpo. Se usar extrato de baunilha adicione o extrato ao iogurte e misture para incorporar. Adicione a gelatina ao iogurte e mexa bem para incorporar totalmente e não deixar nenhuma parte empolada. Se preferir coe a misture. Divida em 10 potinhos de vidro pequenininhos com capacidade para cerca de 100ml. Sirva com calda ou frutas frescas.

Rende 10 potinhos.



Bolinho de mirtilos

A receita do bolinho é sempre a mesma, mas desta vez ela ficou melhor do que nunca. O resultado com frutas não congeladas é bem melhor. Para ver a receita dobolo de mirtilos.




Estamos com as malas prontas para uma semana no nosso quintal favorito, a Suécia. Como moramos no interior da Noruega, no fundo do Trondheim fiorde, estamos cerca 40 km de fronteira e o povo aqui de Trondelag costuma se jogar Suécia a dentro. Ao invés da costa da Noruega vamos para o golfo da Suécia que em geral tem um clima mais quente e menos chuvoso do que a costa Atlântica da Noruega. Além disso a Suécia é uma reta para dirigir. Paisagem bem mais simplinha, enquanto na Noruega as estradas são um redemoinho de montanhas, fiordes, balsas, pontes e outros acidentes geográficos. A Noruega é linda de se ver, mas difícil de se cruzar. Por isso esta semana deixaremos os banhos de fiorde de lado e vamos para o mar, em Sundsvall, na costa da sueca. Em breve eu volto.

Para acabar: Já recebi os endereços que faltavam e as amburanas estão a caminho.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Um dia blue, a torta de amêndoas e mirtilos e uma geléia...



O mundo não é nada do jeito que eu gostaria que ele fosse, queria apenas saber quando as coisas vão começar a mudar. Eu não gostaria de morrer sem ver, por exemplo, a estrutura da terra no Brasil ser alterada. Os motivos que me deixam louca são muitos, vão além da injusta distribuição de terras e eu não vou ficar aqui listando os absurdos do meu mundo. Mas quando eu descubro que a Monsanto está assediando os pequenos produtores nordestinos de algodão orgânico para usar
sementes transgênicas eu fico totalmente passada. Com as fazendas de milho não transgênico do México já largamente contaminadas pelos gens do milho transgênico você não imagina o medo que me dá. Enquanto isso o agronegócio da soja faz vergonha (mais uma) devastando a natureza e o povo do cerrado. A gripe suína já matou para mais de 30 em São Paulo e a coisa promete já que, falo por experiência própria, o frio é sempre mais intenso em São Paulo em agosto e setembro.



Eu não sei viver sem sofrer. Eu estou aqui, mas estou lá, sabe como é? E é isso que faz me faz agir, que me movimenta. E eu não consigo ficar parada vendo os pequenos produtores, da agricultura familiar, de algodão orgânico do nordeste serem ameaçados. Os produtores do algodão significam muito, tudo o que importa. Eles representam a história do Brasil, da sociedade, da cultura, da agricultura, da economia, da filantropia e do sonho de um Brasil melhor, começando pela região nordeste. A história do algodão brasileiro conta a história do capitalismo, da América, do mundo ocidental, da economia de mercado, da globalização, das regras vigentes do comércio internacional. Mais do que o café, a cana, a carne e a praga da soja, o algodão, produto nordestino por natureza, é o símbolo da luta e do poder de sobrevivência do agricultor brasileiro. Hoje o algodão é cultura que dá exemplo na agricultura familiar, orgânica. O algodão é ainda o símbolo da luta contra as injustiças do comércio internacional.




A produção do algodão orgânico no nordeste é o objeto do meu projeto de doutorado. Era para eu ter estar com eles agora mas eu ainda não obtive o financiamento que preciso para o trabalho de campo no interior dos Estados do Ceará e Pernambuco. Perdi algumas batalhas mas ainda não perdi a guerra. Eu espero que até o começo do próximo inverno sertanejo eu possa escrever direto do sertão (chuvoso). Por hora eu continuo por aqui, tomando vitamina de mirtilo, ao invés de suco de graviola. Sofrendo a dor da distância, a saudade e o desespero da não-ação. Me aguentem...



Com a casa lotada de mirtilos eu já fiz montes de vitaminas com os mirtilos que fui congelando. Para o café da manhã do time da casa eu bato os mirtilos com banana, melão (ou morango) iogurte natural e suco de maça, as vezes com mel. E fiz um refresco de mirtilo com groselha, geléia de mirtilos e, claro, esta torta que fez o maior sucesso. As crianças devoraram com iogurte de baunilha. Eu fiz a massa e reservei uma parte e fiz algumas versões em miniatura, tipo tartelettes. Ficaram todas ótimas. A massa com amendoas ficou um biscoito crocante e deliciosa. As crianças brigaram pelas "esquinas" da forma quadrada onde sempre fica mais massa. Eles ajudaram muito, trabalho infantil ainda não está totalmente proibido aqui em casa e, além de colher os mirtilos, eles ajudaram a limpar já que as frutas vem cheias de folhas e pedaços de árvore. Eles merecem as delícias feitas com as frutas...




A massa não tem mistério, uma massa podre com amendoas. Facílima de fazer.


misturar ingredientes (ver abaixo) com as pontas dos dedos...


formar uma massa e formar uma bola com ela, assim...


enrolar a massa num filme plástico e colocar na geladeira por uma hora...

O recheio é ainda mais fácil pois você pode usar a batedeira para bater gemas e claras. No final use uma colher de pau para mexer. E o recheio, que mistura de ovos e amendoas, me lembrou o sabor do biscoito champanhe com licor de amendoas que eu fiz semana passada. Eu adorei.



Massa e recheio na forma antes de ir ao forno...



A torta mal saiu do forno e já estava desfalcada...




A receita da torta é meio grande. Eu fiz uma torta retangular e além das versões torta e tortinhas ainda sobrou recheio que eu coloquei em refratários individuais untados, tipo aqueles de suflê. Ficaram ótimos também. Eu e Per comemos um quente, dividindo, mas o segundo ficou muito melhor pois comi frio, no dia seguinte. Vale a pena experimentar.



Com uma textura mais ou menos assim...



Torta de mirtilos e amendoas


Massa

200 gramas de farinha de trigo
120 gramas de manteiga gelada
100 gramas de açúcar de confeiteiro
50 gramas farinha de amendoas
2 gemas
Algumas colheradas de água fria se necessário

Como:

Num processador misture o açúcar de confeiteiro com as amendoas e processe até formar uma farinha fina. Transfira para uma superfície limpa e seca. Adicione a farinha, misture e forme um círculo. Adicione a manteiga e misture usando as pontas dos dedos. Adicione as gemas e continue misturando até formar uma massa tipo farofa grossa. Se a massa estiver seca, dependendo das condições do ambiente, da farinha e da manteiga, adicione colheradas de água gelada até dar o ponto e formar uma massa homogênea mas nada grudenta. Forme uma bola, enrole num plástico e leve a massa para gelar por uma hora. Retire da geladeira e forre uma forma de torta com a massa e leve para gelar enquanto prepara o recheio.


Recheio

500 gramas de mirtilos ou outra fruta que você preferir
3 ovos
100 gramas de açúcar
120 gramas de farinha de amendoas
Açúcar de confeiteiro para decorar

Como:

Lave levemente as frutas, deixe-as secar e reserve. Separe gemas e claras. Num pote de vidro ou metal bata as gemas com 50 gramas de açúcar até esbranquiçar. Adicione a farinha de amendoas as gemas e bata um pouco mais para incorporar. Bata as claras e quando começar a formar uma espuma adicione as 50 gramas de açúcar restantes. Misture delicadamente, usando uma colher de pau ou espátula, as claras a mistura de gemas. Adicione as frutas e misture mais um pouco. Distribua o recheio sobre a massa de torta e leve ao forno pré-aquecido a 190C. Asse por 40 minutos ou até que a massa da torta e a cobertura do recheio estejam douradas.





Eu ainda tinha prometido uns biscoitos para as crianças e fiz um rapidinho de coco com gotas de chocolate branco. Ficaram demais. Nunca uma leva de biscoitos acabou tão rápido. Vale a pena provar, use o chocolate que preferir. A receita é a
mesma que eu publiquei no ano passado com pedaços chocolate amargo.





Biscoito de coco com pedaços de chocolate branco


200 gramas de açúcar mascavo
150 gramas de farinha de trigo
150 gramas de manteiga temperatura ambiente
50 gramas de coco ralado
50 gramas de gotas de chocolate ou chocolate picado
1 colher de chá de extrato natural de baunilha
1 ovo
1/2 colher de chá de bicarbonato de sódio



Como:

Aqueça o forno a 180C. Misture a manteiga com o açucar até incorporar totalmente. Adicione o ovo e misture bem para incorporar. Passe a farinha e o bicarbonato pela peneira e adicione à mistura de manteiga. Misture bem até incorporar totalmente. Adicione o coco ralado e mexa até incorporar. Por fim adicione o chocolate picado. Coloque colheradas de massa num tabuleiro forrado com papel manteiga, bem separados um do outro pois os biscoitos vão se esparramar bastante sobre a forma. Colheradas pequenas vão se esparramar e formar biscoitos mais finos. Colheres mais cheias vão formar biscoitos mais gordinhos, por isso molde do jeito que você preferir. Asse por 10 minutos e retire do forno mesmo que o biscoito aparente estar meio mole ao toque. Deixe esfriar na forma antes de remover. O biscoito precisa ficar na forma até endurecer e poder ser tocado.

Rende 30 biscoitos




E claro, que ainda rolou uma geléia de mirtilos. Geléia não tem mistérios. Esta eu fiz com uns talos de maça que é uma fonte natural de pectina que ajuda a dar consistência a geléia de mirtilos que fica bem líquida.




Geléia de mirtilos


300 gramas de mirtilos
150 gramas de açúcar cristal
Dois ou tres talos centrais de maças com os caroços ( é o centro da maça, onde ficam os caroços)
Um pouco de água.

Corte os talos centrais das maças (aqui em casa elas abundam) em rodelas e cozinhe em algumas colheres de sopa de água. Deixe cozinhar até amolecer, cerca de 15 minutos. Passe os talos cozidos pela peneira. Numa panela de fundo grosso coloque o purê dos talos das maças, os mirtilos e o açúcar numa panela de fundo grosso. Cozinhe em fogo médio, mexendo de vez em quando, até que a geléia comece a engrossar. Cerca de 15 minutos. Deixe esfriar e transfira para um pote esterilizado.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Jardins, frutas e diversidades...



Eu tenho demonstrado a alegria que me dá colher frutas no nosso jardim. Eu fico realmente feliz por colher qualquer coisa, pois o fato de colher é que me dá imensa alegria. Quando criança eu já colhia no quintal da casa dos meus pais. Me lembro bem que eu amava ir colher folhas de couve no jardim para minha mãe. Eu era tão pequena que tudo o que eu alcançava eram os pés de couve e, naquele tempo, nosso jardim era muito rico: mangas, abacates, amoras, pitangas, goiaba, mamão e um coqueiro.

Em São Paulo, minha primeira casinha em Pinheiros tinha um pequeno jardim exibia uma linda figueira que estava sempre carregada de figos que eram involuntariamente divididos com os pássaros e um mamoeiro que, apesar dos esforços, os mamões não vingavam. Já na famosa casa da Granja Viana, além dos muitos abacateiros, também tinhamos manga, bananas, amoras e limões. Na minha vizinha eu colhia maracujás, numa trepadeira linda e enorme. Na nossa casa também tínhamos pés de mamão, mas aprendi que mamões não dão certo em São Paulo, não na cidade de São Paulo e eu não sei porque...



Se hoje eu colho maças, groselhas, framboesas, morangos, cerejas, ameixas e mirtilos, eu ainda me lembro da primeira vez em que eu vi uma macieira carregada na vida, e a alegrias de ver o morangos crescerem no quintal da minha casa.

Hoje foi um dia de especial, fomos para a floresta, bacias nas mãos, colher mirtilos. Foi a primeira colheita familiar do ano e foi bem mais cedo do que eu esperava. Ontem Per e as crianças foram pescar no lago aqui perto (onde as crianças patinam no gelo no inverno) e ao passarem pela floresta onde geralmente colhemos mirtilos ele viu que os arbustinhos estavam azuis, carregados. Hoje parou de chover e fomos lá colher mirtilos. Foi uma longa hora, muito trabalho e frio. Andou chovendo e a temperatura caiu bastante nos últimos dias. As 20:00 horas, quando voltamos para casa, o termômetro do carro estava marcando 9C, mais frio do que o inverno em São Paulo e no Rio de Janeiro, com certeza.




Ficar agachada colhendo frutas na floresta dá a maior dor nas costas e por isso, lá pelas tantas eu me sento no musgo, na meio da floresta, para colher os mirtilos. Os arbustos são bem pequeninos e para colher a gente precisa se abaixar mesmo. Todas as vezes que eu saio para colher eu penso nas pessoas que fazem este trabalho pesado, colhendo agachados todos os tipos de alimentos. Haja coluna para aguentar ficar curvado por tantas horas.

Nas primeiras vezes que eu fui colher frutas na floresta eu tinha um certo receio de sentar, literalmente, no meio do mato, mas depois eu me acostumei pois não tem nenhum perigo. As florestas aqui são muito diferentes das matas brasileiras. Não há aranhas enormes, cobras, sapos, nem montes de insetos diferentes, ali praticamente não existe nenhuma criatura viva para nos atrapalhar. Mas claro que, lá pelas tantas, pode até aparecer um alce e aí a coisa fica feia.



O que eu quero dizer com isso é que a biodiversidade de uma floresta nórdica é muito pequena, pequeniníssima se comparada com a opulência de espécies das matas tropicais. Por falar em biodiversidade eu acabei por me lembrar de uma série de televisão sobre jardins que passa aqui aos domingos. É um programa apresentado por um arquiteto paisagista inglês e no programa do último domingo ele visitou o Brasil. Primeiro ele foi ao Rio de Janeiro onde visitou o sítio do Burle Marx e exibiu algumas das criações inovadoras daquele que ainda é o mais famoso paisagista brasileiro. Se estivesse vivo Burle Marx teria completado 100 anos de vida este ano. E acabei me lembrando de outra coisa. Em 1994 eu estava no plantão de sábado na Folha de S.Paulo quando o Burle Marx morreu e escrevi uma pequena biografia do Burle Marx que saiu publicada pela Folha de S.Paulo naquele domingo. Foi um texto pequeno, sobre o trabalho dele, pois não havia muito espaço já que a Folha de domingo já estava totalmente fechada desde sexta. POr Burle Marx, nós tivemos que fazer um milagre para encaixar as matéria no jornal que já estava quase todo rodado. Mas na segunda a Ilustrada correu atrás do prejuízo.



Enfim, depois do Rio de Janeiro o tal apresentador inglês foi para Manaus onde circulou por jardins construídos sobre embarcações no rio Negro. Com a maré extrema dos rios as populações não podem plantar nada ao redor das casas, que são costruídas sobre palafitas, por isso plantam em barcos. O apresentador, cujo nome eu esqueci, estava passadérrimo com tudo o que via. Era a primeira viagem dele à Amazônia e ele repetia diversas vezes que naquele pequeno perímetro, ao redor dos barcos, havia mais espécies diferentes do na América do norte inteira por exemplo.

Agora falando para os brasileiros apenas: Mirtilos, groselhas, framboesas e mais uma leva de cerejas (ou melhor, bagos) diferentes não são nada, nada mesmo, perto da diversidade que você vai encontrar se sair de sua casa e for andar pelo mato ao redor da sua cidade. Suba uma montanha, ante pela mata. No mínimo você volta para casa com um carregamento generoso de camapus , fruta de mato muito fácil de achar em qualquer canto do Brasil.



Por aqui mirtilos é o que temos e até o final o verão o nosso freezer vai ficar lotado pois nós saímos para colher toda semana. Eu vou poder fazer tudo o que eu quiser com as frutas. Me deu até vontade de comprar uma máquina de fazer sorvete, quem sabe. A tortinha de mirtilos que está começada na cozinha ficou para amanhã. A postagem sobre ela também. Hoje a noite não deu para fazer nada, nós ficamos mesmo foi no suco de mirtilos batido com suco de maça e iogurte de baunilha. Tudo de bom...

Mirtilos me lembram açaí, essa sim minha fruta favorita...

sábado, 18 de julho de 2009

Pavê de baunilha e chocolates



Ontem, como eu desejava, fiz um pavê. Finalizei o doce hoje pela manhã, adicionando a cobertura de ganache de chocolate branco. Depois disso esqueci do doce e fomos almoçar na casa dos meus sogros. Voltamos com os estômagos cheios, comemos demais, eu principalmente, e ninguém estava com nenhuma vontade de comer pavê. Mas agora a noite, depois de um dia longo, eu ofereci e as crianças aceitaram. Fui então decorar os potes individuais de pavê com as frutas que eu tinha acabado de colher. A coisa aqui em casa os turnos são assim: pela manhã a Estela acorda mais cedo e vai primeiro colher morangos, depois o Tormod acorda e vai com ela pegar mais algumas frutas. Durante a noite são os pássaros que comem o que querem e, no final da tarde eu, como quem não quer nada, vou atrás de algumas frutinhas para congelar. Em dia de sol quente, como hoje, colhemos morangos e framboesas pela manhã, e a tarde. A partir de agora as framboesas vão tomar conta, dar show e eu já comecei a congelar. Daqui até agosto serão tantas, mas tantas, que nem a Estela vai dar conta.


(no pratinho as frutas que eu colhi no nosso jardim no final da tarde, produção doméstica dura pouco mas dá a maior alegria...)


O caso de amor da Estela com as frutas é impressionante. Ela come todas as frutas que existem. As frutas que ela ainda não provou, vai gostar quando provar. Gosta de frutas azedas, amargas, verdes e duras. Gosta de frutas docinhas também, mas come de tudo. Framboesas ela come aos montes. Per gosta de framboesas, mas come muito poucas. Eu e Tormod não gostamos de comer framboesas frescas. Eu gosto delas, mas acho-as enjoativas demais, prefiro em forma de balas, caldas, bolos e geléias, acho-as muito perfumadas frescas. Já o Tormod não gosta de framboesas mesmo. A mesma coisa são as groselhas. Eu acho as groselhas umas belezinhas, maravilhosas em bolos, em refrescos e sucos, mas insuportavelmente azedas. Tormod também não come. Per acha uma punição ter que comer groselhas, trauma de infância que um dia eu explico. Já Estela, bem, Estela come groselhas todas as groselhas do bairro se deixar. Ela come groselhas verdes, nem precisam estar maduras. Se você já provou sabe do azedume que é aquilo.



Eu me orgulho de vê-la comer tantas frutas diferentes todos os dias. Quando o assunto são frutas, ela come a melancia inteira, uma caixa inteira de morangos numa sentada, melhor, quantas caixas houver. Come todas as groselhas do pé, todas as framboesas, as bananas (verdes de preferência), todas as maças da fruteira, as cerejas, toda a bacia de uvas, melões de todos os tipos, o abacaxi mais ácido, todos os pêssegos, as ameixas, azedas ou doces, as laranjas, as peras duríssimas de tão verdes. Parece um limpa trilho de frutas. E o mais interessante, Estela não gosta de frutas com cremes, com caldas, com coberturas, nem com açúcar. Gosta de frutas puras, sem nada, em geral mais para verdes.



Mas ela não gosta muito de pavê, não gosta do biscoito, mas gosta do creme de baunilha e das frutas. Eu preparei um pavê um especial para ela, uma camada de biscoitos apenas. Decorei com morangos, groselhas e framboesas. Comeu todas as frutas e deu duas colheradas na ganache de chocolate branco e pronto, não quis mais. A decoração dos potes de pavê seguiu o gosto de cada um. Para o Per, só framboesas. Para o Tormod, só morangos silvestres. Para a Estela todas as frutas que tiver pois no final ela só come as frutas mesmo. Eu comi uma misturinha de tudo para dar exemplo.



Pavê de creme de ovos com baunilha, chocolate amargo e chocolate branco


Para o creme baunilha e chocolate amargo

500ml de leite desnatado
5 colheres de sopa de açúcar
4 gemas
3 colheres de sopa de amido de milho
raspas de uma fava de baunilha
50 gramas de chocolate amargo (usei 70% cacau)
1 colher de sopa de manteiga

Para a camada de biscoito

Uma receita de biscoito de champanhe

24 biscoitos champanhe
1 xícara de leite desnatado
3 a 4 colheres de licor de amendoas Disaronno (uso outro se preferir)

Para a ganache de chocolate branco:

200 gramas de chocolate branco
200ml de creme de leite



Como fazer:

Cremes:

Separe quatro taças grandes ou seis pequeninas. Derreta o chocolate amargo em banho maria e reserve. Numa panela de fundo grosso ferva o leite com as raspas da fava de baunilha (se usar extrato adicione no final). Numa tigela de vidro bata as gemas com o açúcar até esbranquiçar. Adicione o amido de milho à mistura de gemas e bata bem para incorporar. Quando o leite ferver adicione aos poucos à mistura de gemas mexendo sempre para não talhar. Transfira a mistura de volta para a panela e leve ao fogo baixo, novamente, mexendo sempre até engrossar e a mistura ferver. Remova do fogo. Se for usar baunilha em extrato adicione a baunilha e mexa para incorporar. Transfira metade do creme para um pote de vidro e reserve. Adicione o chocolate derretido e a colher de manteiga a outra metade do creme de baunilha e com um fouet mexa bem para incorporar totalmente. Agora, dependendo da sua preferência, divida o creme de chocolate (se preferir coloque primeiro o creme de baunilha) no fundo de copos ou taças de vidro. Enquanto o creme esfria vá preparar os biscoitos.

Camada de biscoito:

Num prato fundo coloque o leite e o licor. Mergulhe os biscoitos e arrume uma camada com 3 biscoitos sobre o creme de chocolate (ou baunilha) da base. Coloque por cima da primeira camada de biscoitos outra metade do creme (chocolate, ou baunilha, dependendo da ordem que você quiser). Sobre a segunda camada de creme coloque então uma segunda camada de biscoitos molhados no leite com licor. Cubra as taças e leve-as para o freezer por cerca de uma hora. Depois que o biscoito estiver endurecido adicione a camada de chocolate branco.

Ganache de chocolate branco:

Pique o chocolate branco num pirex e reserve. Numa panelinha sobre fogo baixo ferva o creme de leite. Quando ferver deite sobre o chocolate picado. Deixe o chocolate derreter por uns minutos antes de começar a mexer. Mexa com uma colher de pau ou fouet até incorporar totalmente. Deixe esfriar e distribua uma camada generosa sobre a segunda camada de biscoitos do pavê. Deixe esfriar e leve para gelar. O ideal é deixar no freezer por mais uma hora. Se preferir faça uma ganache de chocolate ao leite ou amargo, todas ficam boas.

Sirva com raspas de chocolate branco e frutas.

Rende 4 porções individuais.



Nossa plantaçãozinha de framboesas começou a amadurecer e está indo a todo vapor. As framboesas funcionam assim, quanto mais você colhe mais elas dão...

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Um biscoito chamado champagne



Faz uns dias que eu estou com um desejo louco para comer pavê e andava com uma grande preguiça maior ainda para fazer. No fundo eu queria era comer o pavê da minha mãe aqui, queria que alguém fizesse para mim. O pavê da minha mãe é maravilhoso e durante muitos anos foi a sobremesa mais popular da família. Mas aqui, simplesmente não rola. Já no processo do pavê, eu ainda precisava dos biscoitos champanhe, o biscoito que nós, brasileiros, chamamos de champanhe. Os biscoitos que os franceses chamam de biscuits à la cuillère, os italianos de savoiardi e os ingleses de lady fingers. Os nomes são muitos, mas o biscoito é o mesmo. Pode variar um pouco no aroma, alguns com baunilha, outros com amendoas. Mas o biscoito é o mesmo, muito fácil de fazer e uma delícia de se comer.



O biscoito champanhe é facílimo de fazer e eu não queria comprar pronto, até porque eu não gosto do biscoito italiano que vende aqui. Me acusem de insensível se quiserem, mas acho o biscoito savoiardi ruim. Enfim, além de fácil de fazer, pavê com biscoito de champanhe feito em casa fica muito, mas muito mais gostoso e macio. Mas aí, lembra da preguiça? Depois que eu fiz os biscoitos fiquei com preguiça de fazer o pavê. Ando pior do que Macunaíma e não quero me levantar da rede por nada desse mundo. A preguiça é uma desgraça e a vontade de comer pavê persiste. Amanhã, quem sabe, eu volto com meu pavê e cheia de energia.




Biscoito champanhe

3 ovos
80 gramas de açúcar
70 gramas de farinha
1/2 colher de chá de licor de amendoas (opcional)
Açúcar de confeiteiro para salpicar

Como:

Forre duas formas com papel manteiga e reserve. Pré-aqueça o forno a 180C. Num pote de vidro ou metal (não use plástico) bata as gemas com 50 gramas de açúcar até formar um creme fofo e esbranquiçado. Num outro pote (que também não seja de plástico) coloque as claras. Bata as claras e quando as claras começarem a formar ums espuma mais dura adicione 30 gramas de açúcar e bata até deixar as claras em neve. Adicione as gemas às claras em neve e mexa suavemente, com uma espátula ou colher de pau, para incorporar sem perder o volume. Adicione o licor e a farinha, peneirada, e mexa até incorporar totalmente a farinha à mistura. Mexa o mínimo possível e com a maior delicadeza possível para que a mistura não perca volume.
Transfira a massa para um saco de confeiteiro e com um bico simples forme os biscoitos na forma preparada. Deixe endurecer por alguns minutos e salpique açúcar de confeiteiro sobre os biscoitos.

Asse por 12 minutos.
Rende de 36 a 40 biscoitos, dependendo do tamanho do bico do saco de confeteiro.


Os biscoitos antes de receber o açúcar. Eu assei alguns biscoitos sem o açúcar e outros com açúcar. Os biscoitos sem açúcar ficam mais macios e eu acho que ficam melhor assim na hora de fazer pavê.



Os biscoitos antes de assar já com a camada de açúcar;



Os biscoitos assados com açúcar por cima com as rachaduras características...

Comentários:

Biscoito champanhe é o biscoito favorito da minha mãe. Ela não é uma pessoa chegada em biscoitos mas biscoito champanhe é o único biscoito que eu já vi ela abrir uma caixa e comer quase inteira. Se por um lado ela adora biscoitos champanhe, por outro ela detesta a toalha de mesa que estava na mesa hoje, sobre a qual eu fotografei os biscoitos favoritos dela.

No verão passado ela estava ficou uns meses aqui em casa e não admitia que eu colocasse a toalha estampada com hibiscus coloridos na mesa de jeito nenhum. Ela insistia que não há toalha mais horrorosa do que essa. Acho que biscoito champanhe e toalha de hibiscus coloridos em dia de muita preguiça é sinal de saudade da mamãe...