terça-feira, 23 de novembro de 2010

Pensando em Copenhagem



Estive em Copenhagem numa conferência bem legal onde apresentei o trecho de um artigo meu, parte da minha pesquisa, sobre alimentos orgânicos e agricultura familiar em Pernambuco. Foi divertido circular sozinha (sem marido, nem filhos) pela cidade onde até então eu só tinha estado acompanhada pela tropa toda. Divertido conhecer a Universidade de Copenhagem, observar as pessoas, o que comem, encontrar brasileiros interessantíssimos por lá, como sempre, que também estavam apresentando trabalhos e isso foi totalmente sensacional. Tive tempo para rever a cidade e dar umas boas bandas por Copenhagem durante os três dias que estive lá. Deu para circular descompromissadamente pela região central, perto da universidade e do hotel onde estava hospedada e estabelecer novas verdades relativamente absolutas para a minha vida.



Quando eu sai de Trondheim estávamos enfiados em mais de meio metro de neve com uma temperatura de -10C e por isso chegar em Copenhagem, onde fazia +7C, foi uma maravilha. Estava chovendo, ventava e os dias foram nublados, mas a temperatura estava agradável e eu estava muito bem agasalhada. Eu gosto de Copenhagem, é uma cidade bem interessante mas dentre as três capitais escandinavas fica em terceiro lugar, sendo então aquela de que eu "menos" gosto. Eu adoro Oslo, naturalmente, sinto que Oslo fala comigo em tom de intimidade, de igual para igual. Além disso, Oslo me parece uma cidade que convida as pessoas a sairem do óbvio, do consumo generalizado estandartizado e do superficial.

Oslo convida os visitantes a fazer entradas mais transversais na cidade e na cultura. Oslo é visivelmente mais difícil para aqueles que preferem a superficialidade das ruas e a estandartização dos espaços, ainda que em Oslo também não faltem calçadões e as opções de sempre como redes de hambúrgueres baratos. Mas eu fico feliz por não haver, por exemplo, Starbucks em Oslo. Espero que não abra um enquanto escrevo esta postagem, era só o que me faltava. Mas me dá um certo alívio ver que ainda predomina ali a jeito norueguês de beber café.



Aqueles que gostam de viajar o mundo sem mudar de hábitos poderão se sentir incomodados pois Oslo é, na minha opinião, a mais "fechada" das cidades da europa ocidental, o que me faz apreciar ainda mais a capital norueguesa. Gosto dessa atitude, meio que reflexo da atitude independente dos noruegueses. Eu também gosto de Estocolmo, uma cidade bonita pacas, mais imperialista e gigantista por um lado, mais cheia e com mais opções, inclusive as tais opções estandartizadas. Ali há tanto restaurantes, como cafés de rede para todos os gosto. Já falei aqui o quanto eu detesto redes? Acho comida de redes uma pobreza absoluta, mas há quem goste e quem faça resenha (sic). Mas como já dizia o poeta de Vila Isabel, "cada um come o que gosta". Em Estocolmo há um sem número de excelentes opções de cafés, bares e restaurantes únicos e fantásticos, coisa que só se encontra ali e os melhores preços da escandinávia e isso e importante já que essa região é cara.

Mas não era sobre Copenhagem? Apesar de lindinha eu acho Copenhagem um tanto apertadinha e pode ficar cheia demais dependendo da época do ano e desta vez estava cheia. Uma multidão para todos os lados. Difícil de andar no centro, já que quase tudo se concentra ali no meinho do centro, muito bares, muitas redes, mas boas opções únicas e exclusivas.



Desta vez me incomodou bastante o cheiro de cerveja velha no ar, um cheiro que sempre me lembrava, um tanto negativamente, Amsterdã e Londres. Enfim, circular pelos centros urbanos de orgulhosos produtores de cerveja tem dessas coisas. As confeitarias, como sempre, foram o mais interessante. As confeitarias são tão interessantes quanto as francesas e, na minha opinião, sem o estresse de Paris. Assim como me encantei com as confeitarias suíças, me encanto sempre com as confeitarias dinamarquesas, o que me leva a crer que as confeitarias francesas são mesmo, por demais, super valorizadas. As confeitarias de Copenhagem estavam cheias de pães de marzipã, tara destes povos nórdicos e minha também. É marzipã com tudo nesta época de natal.

Ainda que fique em Copenhagem aquele que alguns críticos consideram o melhor restaurante do mundo eu passei ao largo das inovações. Eu ciculei muito mas comi pouco, de tudo o que experimentei amei mesmo um pão de ruibarbo com marzipã e avelãs que era tão inesperadamente bom que serviu para despertar em mim a vontade de fazer essa mistura em casa também. Circulei muito, comi umas coisinhas diferentes, bebi coisinhas diferente e outras nem tanto: numa confeitaria onde tudo era orgânico (que me chamou pelo nome, claro) achei uma bebida a base de açaí fantástica e que me encantou de tal forma que me deu vontade de gritar. Pois é, açaí em Copenhagem pode provocar as mais loucas viagens...



Mas no fim, não fossem as pequenas surpresas e os cantinhos diferentes, eu diria que circular pelas grandes cidades está cada dia mais chato. Nunca fui de gostar de ficar gastando e comprando montes de coisas, na verdade o consumo inútil de viagem me dá até irritação. Mas eu acho que mesmo para quem gosta de circular, para comprar coisas, a coisa deve estar chata e ficando cada dia pior. Tudo o que vejo são as mesmas cadeias de lojas que se encontra em todas as grandes cidades do mundo, em Trondheim inclusive e não há nada diferente. Será que é isso mesmo? Será que todo mundo quer comer e se vestir do mesmo jeito? Ou será que eu é que sou uma mala sem alça? O mundo está tão adolescente...

12 comentários:

Dani disse...

Que legais as suas impressões. Sabe que onde moro só tem praticamente comida de rede, isso e restaurantes orientais "marromeno" - o lugar é bem atrasadinho mesmo, vive num outro tempo-espaço, não acompanhou a mudança dos tempos e tampouco tem qualquer tradição.
Eu escrevi sobre um restaurante de rede, rs, porque é ok, e como disse, quando saio, não há outra opção. É triste.
Outra confissão: gosto do Starbuck's porque é como sempre tomei café - de canecão, e não muito forte -, não é a minha bebida favorita, por isso não sou muito purista. Agora, o exagero de filiais Starbuck's, Costa's e Nero's em Londres é absurdo. Mas há os cafés normais para contrabalançar - aqui, não. Eu gosto dos cafés de verdade pelo ambiente, e dos de plástico pelo café. Difícil, rs.
Cerveja velha é o cheiro que mais me lembra Londres.
Parabéns pelo sucesso da apresentação, e que legal que você esteja passando por uma fase reavaliação e renascimento. Você merece se sentir bem!
Um beijão!

Sheila Aparecida Vieira de disse...

realmente o mundo está muito adolescente... e o mais triste é que na cidade onde moro vejo essa adolescência chegar com força total mais e mais a cada dia e ser encarada como sinal de crescimento e adultescência! difícil, nao?

Claudia disse...

Dani,

Aqui felizmente as redes não fazem sucesso algum. Os noruegueses bebem muito café, bebem mais litros de café/habitantes do que qualquer país no planeta, mas não bebem espresso e não usam açúcar nunca, só bebem preto. Eu adoro o jeito deles de tomar café que é basicamente só café filtrado ou feito a la arabe/café turco, cozido com o pó que depois desce e então bebe-se e depois cria borra, sabe? E bebem café de canecão e café forte a brasileira, de grãos bem torrados e eu gosto de café filtrado também. Cansei de espresso de baixa qualidade, detesto essa onda "maquinista", esses gadgets de cafés são tão bobos. Cara, eu ando do contra total. Tô cada dia pior com o consumismo e o comercialismo e olha que eu não deveria. Mas rede é comida fraquinha, né? Nem essas redes mais metidas tipo Ottolenghi eu acho que justifica. Abrir rede é para faturar e não para cuidar. Mas eu sou mala... Aí onde você vive você precisa fazer tudo em casa mesmo, meio como eu! Aqui também é pequeno e o povo pouco criativo na hora de comer.



Sheila,

Não é verdade? Essa padronização é tão cansativa e imatura. Adolescente é que costuma ser assim, querem fazer parte e precisam estar dentro do padrão do grupo. Já estava na hora de se investir mais ousadia e criatividade. Coisa mais chata é o conformismo.


Beijos,

Cláudia

Talula disse...

Claudia, depois de morar em duas capitais, estou bem feliz no interior. O pessoal aqui é tão conservador, que eles fizeram até abaixo assinado pra vetar a entrada de uma rede de supermercados.
Tem muita feira, muitas senhorinhas que fazem coisas em casa. É como voltar ao passado. No início foi um choque, agora acho que vir morar aqui foi o grande acerto das nossas vidas!

camila disse...

Oi Cláudia, acompanho seu blog há uns seis meses e seu post de hoje me incentivou a me apresentar. Meu nome é Camila,carioca criada no sul, historiadora no ramo da arqueologia.Concordo contigo sobre a padronização do comercio e da culinária em geral e isso me preocupa muito.Viajo muito pelo país a trabalho e mesmo no interior do interior do Brasil vemos lanchonetes que tentam imitar os lanches fast-food e relegam suas comidas tradicionais e maravilhosas ao esquecimento.O artesanato é outro produto em extinção.Sempre procuro o artesanato local em todos os lugares que vou e cada vez é mais dificil encontrá-los não só a venda mas sendo feitos e usados pela população que prefere o plástico, em geral mais barato.
Um grande abraço pra ti,
Camila Freitas

Tina disse...

Oi amiga querida
Seu blog está linkado no meu, então...tem um selinho pra voce lá...vai buscar, vai!!!
beijinho
Tina (MEU CANTINHO NA ROÇA)

Isabel disse...

Claudia, Lisboa também está cheia de cadeias de tudo, roupa, comida, tudo. Uma chatice, mesmo. Já virou moda andar com o copão da Starbucks na rua a imitar os Nova Iorquinos das séries de tv. Encontrar uma coisa nova, original ou mesmo puramente tradicional começa a ser difícil neste mundo tão exageradamente globalizado.
Gostei das fotos de Copenhaga :)
Bjs

Noémia disse...

Adorei viajar contigo!
As impressões da viagem, as fotos, tudo!
Das três cidades que falas, não conheço Oslo, o que lamento profundamente uma vez que é uma das primeiras viagens que eu e o meu marido programamos, quando nos casamos(xiiii, há quantos anos...)e nunca chegamos a realizar.
Das outras duas prefiro Estocolmo, sem dúvida, embora também goste muito de Copenhague. Adorei uma sopa de natas, nozes e outras coisas que comi num restaurante em Nyhavn e que lamento não possuir a receita, isto para não falar naqueles tapas tão típicas e tão saborosas.
Mas quem sou eu para falar, já que nos dias que correm a minha ânsia de viajar e sair da rotina é tanta que nem que seja para ir comprar caramelos ali à fronteira (força de expressão),já fico contente.
Mas não me posso queixar já que vou no início do mês a um país que adoro e conheço bem, Austria, matar ( quem sabe)essa sede de neve de que já te falei.
Bjs

Nina disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Nina disse...

Pois é, essa tal globalização traz uma uniformidade de hábitos e costumes que é de uma chatice sem tamanho. O que pode ser pior, mais chato e mais igual no mundo todo que um shopping?
Starbucks, credo, como alguém pode orgulhosamente pagar caro por café frio em copo de plástico?
Eu gosto dos centros das cidades, do comércio local, do que é único.
E gosto das cidades menores, que sempre me lembram Pessoa/Caiero:

DA MINHA ALDEIA vejo quando da terra se pode ver no Universo....
Por isso a minha aldeia é grande como outra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...
Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista a chave,
Escondem o horizonte, empurram nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a única riqueza é ver.

Beijo

Claudia Lima disse...

Acho que esta necessidade exacerbada de consumismo das pessoas, é puro reflexo de seu vazio interior.
Eu sou do tipo que prefere economizar do que gastar. Mas as vezes dá vontade comprar umas coisinhas, é claro.
Eu não conheço esta cidade, mas parece agradável. As fotos ficaram ótimas!
Bjs ;)

Sica disse...

Oi, Claúdia! Conheci seu blog hoje qdo buscava uma receita, adorei, parabéns! E ao ler sobre o que escreveu nesse post a respeito das grandes cidades estarem tão parecidas, sou obrigada a concordar. Infelizmente, isso tem ocorrido cada dia mais e mais. Qto às pessoas vestirem-se todas da mesma maneira, eu posso ver isso ainda mais de perto. Moro na Holanda e trabalho num centro de distribuição de roupas de uma rede de departamentos e fico surpresa com a enorme quantidade de roupas idênticas que passam por nossas mãos todos os dias, é como se fizéssemos todos parte de um grande exército, uniformizados como soldados do consumismo...

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