
O silêncio está dominando cruelmente por aqui. Pouco, muito pouco para dizer, nada que justifique uma postagem, nada que emocione. O que eu vou escrever todo mundo sabe e já viu por aqui e pela aí. Este é o pior inverno de todos os tempos, o pior inverno que eu já vi na minha vida e na Noruega e olha que já tivemos invernos péssimos antes... O que pode se dizer é nunca se consumiu tanta energia como na última semana na Noruega. O governo recomenda não lavar roupas ou não lavar pratos nas lava-louças para economizar energia. Há dúvidas se haverá problemas no fornecimento. Enquanto isso haja madeira para queimar, haja criatividade para achar graça na vida enquanto a temperatura oscila entre -20C e -30C. Haja disposição para tanto sofrimento. Pois inverno é puro sofrimento, 100% sofrimento e desolamento.



As imagens dos dias lá fora são uma mistura de beleza e horror. Beleza sim pois há beleza para além da brancura gelada, dos vapores que pairam sobre o mar. E horror pois o frio dói. Não há como sobreviver muito mais do que duas horas se você for pego de surpresa, sem proteção num frio desses. Já pensou nisso? E pessoas estão sendo resgatadas e abrigadas por estranhos em estradas quando seus automóveis quebram e são muitos acidentes que acabam em mortes desnecessárias. Muito gastos, altos custos, muita poluição. Eu por aqui penso na validade de habitar estes cantos gelados do planeta... totalmente questionável. Se o planeta aquecer horrores, o que já começou a fazer, talvez se justifique. Mas se da Espanha para baixo e para os lados tudo vai estar inabitável, haverá alguma graça em permanecer aqui?

As perspectivas para o futuro são péssimas... Nesta hora, eu, uma otimista por natureza, penso no verão. Gosto de lembrar daqueles curtos três, as vezes quatro, meses de temperaturas amenas e de razoável fertilidade nas terras nórdicas. Gosto de olhar as fotos do verão e lembrar da vista da nossa pequena baía dentro do Trondheim fiorde, sim, essa é a nossa baía. E a vista da nossa pequena praia a partir da janela lateral durante o verão...



Contemplar a casa do meu vizinho, reformada desde o verão quando era amarela. Namorar o nosso arbusto gigantesco que cresce livre e sem podas durante o verão. Como eu amo as pequenas flores que dele nascem.... eu aprecio com alegria e amor cada uma destas pequenas flores brancas. O arbusto é enorme, bagunçadíssimo mas floresce como louco, como se cada verão fosse o último. Com o frio que chegou com janeiro, com 2010, nunca se sabe o que vai acontecer, se há de haver novos verões... Saravá, saí para lá uruca! O que o frio intenso não faz com a mente de uma pessoa saudável...



Com a temperatura marcando -24C eu decidi ficar em casa hoje. Nada de escola, nada de vestir para sair de casa, nada de sofrimento. Ontem, com temperatura entre -21C e -22C já foi sofrimento demais. Hoje vamos ficar por aqui, quero cozinhar, tomar sopa, muita gordura, muito creme, muito leite quente. Queimar muita madeira, ocupar as crianças e achar algum sentido na vida invernal para além da TV. Se eu assisto TV em dias como estes aí é que o bicho do desespero me pega mesmo...


A TV tem o poder de me irritar e destruir toda a minha confiança e respeito pela espécie humana. Não há realmente nada que me inspire naquela telinha e por isso eu durmo e me enrolo. Estou super preguiçosa e devagar, mas que saída? Mas muitos são os planos, muita coisa para fazer neste novo ano. E também faço planos de viagem, para fevereiro, quando me afastarei daqui e vou dar uma umidecidinha rápida e circular pelas minhas cidades favoritas neste planetinha. Se você ficou na dúvida: eu quero dizer Rio de Janeiro e São Paulo. Tão próximas e tão distantes de mim.




Estas flores me lembram tantas coisas boas, tantos dias lindos e felizes. Eu amo o verão e não posso mais esperar para viajar. Por hora nós continuamos nos apoiando na força das tangerinas que estão uma beleza. Marroquinas e suculentas as tangerinas são nosso maior consolo. Faço suco de tangerina todos os dias e as frutas chegam em casa em caixas de 10kg.

Além de muita tangerina, sucos e gelatinas de tangerina, muito pouco tem sido feito por aqui desde o aniversário da Estela. Sobre a festa da minha pequena eu nada publiquei, mil perdões, mas é que a festa deixou a desejar no quesito fotografia. E desde então ando deixando as sobremesas meio de lado. Ando meio enjoada e eu sou a principal incentivadora de sobremesas, além de produtora, claro. No entanto, durante estes dias frios e caídos, eu fiz minha versão definitiva de doce de leite. Andei experimentando algumas versões de doce de leite para atingir a receita perfeita para o meu gosto. E acho que finalmente consegui produzir e repetir o meu doce de leite perfeito.






Desde que comecei a fazer o doce de leite talhadinho da minha avó que eu tento encontrar uma receita perfeita para mim. É que meu doce de leite nunca saía igual duas vezes. Sempre ficava diferente e nem sempre ficava bom. As vezes ficava ralo demais e aí precisava cozinhar mais e o doce acabava muito escuro. Eu não gosto de doce de leite escuro demais. E algumas vezes achei que o doce ficou pouco doce, precisando de mais açúcar e passei a experimentar usando mais açúcar e açúcares diferentes.


Depois de experimentar, experimentar e experimentar um pouco mais, durante meses, consegui repetir esta semana o doce de leite dos meus sonhos. Talhadinho mas não aguado, talhado e grosso, denso, doce mas não doce demais, nem doce de menos e com a cor perfeita. Nem escuro demais, nem branco demais. Perfeito.
"Doces de leite enlatados, comprados prontos, vocês não me pegam nunca mais", falou ela arrogante!!!

A busca pelo doce de leite perfeito requer duas coisas: paixão e respeito pela arte de fazer o doce de leite perfeito, pois cozinhar leite com açúcar durante horas e horas é uma tarefa que requer dedicação. Além de amor é preciso acreditar que não é possível comprar um doce a altura do seu, o que realmente faz valer a pena o tempo investido junto ao fogão. Mas, além disso, é preciso acreditar que nem todos os leites e nem todos os açúcares são iguais e que dependendo do leite e do açúcar que se use o resultado vai sair diferente. E tem coisa pior do que não conseguir produzir uma receita duas vezes da mesma forma? Aquela receita que sempre saí diferente?

Se você pode usar açúcar de cana e não tem que se preocupar com a origem do seu açúcar, meus parabéns. Você é feliz e não sabe. Ainda que refinado, o açúcar de cana é ser superior. Já eu, bem, tenho que gastar sapato e dinheiro para achar e poder comprar açúcar de cana branco que além de ser sobre-taxado por aqui simplesmente não se acha. Eu resisto e não me entrego, nem mesmo diante da tristeza de um quilo de açúcar de beterraba. Por isso, onde quer que você esteja, se você ama doce de leite use sempre açúcar de cana puro. Assim que conseguir um belo pedaço de rapadura vou fazer doce de leite com rapadura. O doce fica tudo com o sabor da cana ao fundo, já provei no Ceará mas nunca fiz doce de leite com rapadura.
Meu doce de leite perfeito 3 litros de leite semi-desnatado com 1,5% de gordura
4 copos de 250ml de açúcar branco (refinado) de cana
Uma pitada pequena de bicarbonado de sódio
Como:
1. Misturar açúcar ao leite numa panela grande de fundo grosso, ferro fundido, de aço ou cobre. Em linhas gerais significa que não servem aquelas panelas de ágata que queimam com facilidade, nem panelas de alumínio fininho ou tefalzinhas. Quando ferver o leite vai levantar por isso use uma panela bem maior do que a quantidade de leite.
2. Ferver leite e açúcar em fogo alto mexendo sempre. Quando ferver reduza o fogo bem baixo, adicione o bicarbonato e mexa para incorporar. O leite deve subir bem nesta hora, se preciso retire do fogo e mexa até baixa. Deixe a mistura fervida cozinhar em fogo baixo por cerca de 3 horas e mexa apenas a cada hora ou a cada meia hora.
3. O leite começa a talhar e caramelizar por baixo e mexer o leite o tempo todo usando uma temperatura mais alta ajuda bastante a agilizar o processo, mas é bem trabalhoso. Por isso deixe o leite cozinhar sozinho em fogo baixo mexendo de vez em quando. Para adquirir cor e consitência do meu
doce de leite perfeito é preciso deixar o leite ferver por pelo menos 4 horas mexendo sempre que lembrar. Dependendo da quantidade de leite e da qualidade da panela, do leite e do açúcar o doce pode levar mais ou menos tempo para talhar, escurecer e atingir a consistência ideal.
4. Para ficar cremoso sem talhar exclua o bicarbonato e mexa o leite o tempo todo para evitar que talhe. O bicarbonato ajuda na formação das bolinhas mas mesmo sem bicarbonato o leite vai querer talhar sozinho e para evitar que as bolinhas apareçam, se você preferir, mexa bastante e mantenha o fogo bem baixo, o mais baixo possível.
5. As bolinhas surgem mais intensamente no final quando o líquido já bem escurecido e reduzido e começa a borbulhar o tempo todo mesmo sob fogo mínimo. Mexa bem nesta hora para formar um doce bem homogêneo.