sexta-feira, 15 de junho de 2012

Granola de Sementes de Fagopyrum: Em busca de um novo nome para o tal trigo sarraceno...




Ando experimentando os resultados de uma vida sem glúten da minha vida (para ver como me sinto) e por isso passei a consumir produtos a base de fagopyrum. Sementes, flocos, farinha e derivados diversos. E por isso eu me envolvi no projeto de rebatizar em português essa planta, da espécie Fagopyrum esculentum, conhecida entre nós como "trigo sarraceno". Quem me conhece sabe que não aceito sem reclamar nomes que não gosto, principalmente um nome esquisito como este, que não faz sentido e que é usado por absoluta falta de alternativa. "Trigo saraceno"? Como assim? Já seria um nome ruim se a planta em questão fosse uma espécie de trigo, considerando que não se trata de uma espécie de trigo é um nome pior ainda.

E "trigo saraceno" é o nome dado, na língua portuguesa, à farinha e outros produtos produzidos a partir da sementes que brotam das flores da espécie Fagopyrum esculentum, conhecida como "buckwheat" em inglês, "buckhvete" em norueguês, "blé noir" (grão negro) ou "sarrasin" (sarreceno) em francês. Por que minha revolta? Porque o "trigo sarraceno" não é uma espécie de trigo sem glúten como muita gente pensa. O que hoje chamamos de "trigo sarraceno" é a semente de uma flor/planta que não tem nada a ver com a família dos trigos (triticum), e nem cereal é!.

Por não ser um grão, o Fagopyrum esculentum não tem glúten e tornou-se uma maravilhosa alternativa em dietas sem glúten pelo fato de com ele se produzir uma farinha muito versátil. O fagopyrum é um dos pseudo-cereais, sementes usadas como substitutos de cereais, mas que não são cereais. Outros pseudos-cereais são: quinoa, amaranto e a chia...



(Flor e semente do fagopyrum - Fotos Wikipedia)

Para dar uma idéia do absurdo que é chamar as sementes de Fagopyrum esculentum de "trigo saraceno" pensei alguns exemplos. Seria como a chamar "coca cola" de "leite preto", ou chamar "leite" de "água branca".

Faria sentido chamar "leite" de "água branca" apenas por ser líquida como a água? Não é água, mas é líquido e de beber como o ela. O trigo sarraceno não é trigo, mas com ele é possível produzir farinhas iguais as farinhas feitas de trigo e, por isso, foi chamado de "trigo", mas "trigo sarraceno", sacou? O motivo das sementes de fagopyrum serem chamadas de trigo eu já expliquei, mas de ser chamado "trigo sarraceno" eu explico lá embaixo, no final da postagem!


Mas quais os benefícios de comer fagopyrum i.e. trigo sarraceno?


O fagopyrum ("trigo sarraceno") contém oito tipos de aminoácidos que são fundamentais para um corpo saudável. Além disso é fonte de fibras e de vitamina B, magnésio, cobre, cálcio, manganês, fósforo e flavonóides que atuam como antioxidantes. Assim como outras sementes, o fagopyrum é rico em óleos ômega 3. Especialistas afirmam que o fagopyrum ("trigo sarraceno") ajuda a baixar os níveis de açúcar no sangue e é excelente para quem tem diabetes. Além disso pode contribuir para a baixar a pressão arterial e reduzir o colesterol ruim no sangue. E não contém glúten .

Eu ando namorando uma dieta sem glúten há um tempão... me esforço para deixar de comer glúten pois me sinto muito melhor sem ele. Eu não vou morrer se comer glúten, pois não sou celiaca, mas o glúten tem o poder de infernizar minha vida, fazendo da minha digestão um tormento. Tenho muita dificuldade para digerir trigo desde que tive doença de graves e me causa muita, mas muita azia. Nos dias de hoje nada é mais indigesto para mim do que pães e derivados. Ainda que eu coma algum tipo de pão diariamente. Mas ando crio alternativas sempre que posso e reduzi significativamente minha ingestão de glúten, principalmente de trigo. Quando uso outras farinhas uso emner/farro ou espelta.


Então? Alguma sugestão de nome?





Granola de Fagopyrum (100% orgânica)

500gr de sementes de fagopyrum (trigo sarraceno) cruas e orgânicas
150gr de castanha de cajú ao natural (sem torrar e sem sal)
100 a 150g de coco ralado seco sem açúcar orgânico
100gr de semente de gergelim orgânico
2 a 3 colheres de sopa de óleo extra virgem de coco orgânico
3 a 4 colheres de sopa de mel orgânico (use a gosto)
1 colher de chá de canela em pó orgânica (use a gosto)
1/2 colher de chá de baunilha em pó
100gr de uva passa orgânica

Como:

Na noite anterior deixe as sementes de molho por 8 horas em bastante água para germinarem "levemente". Deixe de molho por pelo menos 6 horas. No dia seguinte descarte a água e lave bem as sementes. A água vai ficar meio gosmenta, é normal, por isso coloque as sementes numa peneira grande ou lavador de arroz e lave bem para tirar toda a gosma que fica nas sementes e deixe a água escorrer por alguns minutos. Eu recomendo deixar as castanhas de cajú e as sementes de gergelim de molho em água durante a noite também. O fato de deixar sementes e nozes de molho em água ajuda a remover os componentes presentes na pela desses alimentos que dificultam a absorção das enzimas pelo organismo e dificultam a absorção. Além disso, o processo de germinação ativa o alimento. Coisa que aprendi com a dieta crua... mas que ajuda a digestão mesmo de quem vai tostar as sementes. Escorra a água das sementes todas e coloque num tabuleiro grande. Pique as castanhas de caju com uma faca. Depois de demolhadas as castanhas ficam bem macias e fáceis de picar, não precisa processar nem nada. Nas fotos eu esqueci de adicionar o gergelim, mas adicionei depois (sem fotos).




Coloque as sementes no tabuleiro grande e adicione as castanhas de cajú picadas com a faca...



Adicione as colheradas de óleo de coco, não muitas...



Umas colheradas de mel... usei este mel dinamarquês que é quase uma manteiga...



Adicione a canela e a baunilha em pó... Parecem idênticas, não? Mas a baunilha é pretinha.



Adicione o coco ralado seco, adicione a quantidade que desejar! Eu adiciono uma montanha pois adoro bastante coco ralado na granola...




E depois é só usar as mãos para misturar tudo muito bem misturado... Se o teu óleo de cocoacabou de sair da geladeia, como o meu, alguns pedaços vão ficar mais aparentes, mas depois derrete. Gosto de guardar o óleo na geladeira, acho que dura mais.





Coloque a granola no forno por 60 a 90 minutos em forno pré-aquecido a 140C. Deixe que seque até tostar levemente. Mexa com uma colher de pau a cada 20 minutos. Lembre: você quer secar a granola e deixar ela apenas levemente tostada. Quando estiver no ponto retire o tabuleiro do forno, adicione as passas sobre a granola ainda quente e misture bem. Eu gosto de adicionar ainda quente pois o açúcar das passas vai derreter e grudar na mistura. Desligue o forno e coloque o tabuleiro de volta no forno desligado e deixe que esfrie dentro do forno. Depois que estiver totalmente fria coloque em vidros herméticos. Rende 800 gramas e conserva bem por até 2 semanas em vidro fechado e protegido de ar.

A granola de "trigo sarraceno" é bem crocante e pode ser consumida como qualquer outro tipo de granola: com leite, iogurte, com açaí batido, como farofa de sorvetes e com todo tipo de frutas.




Um pouco sobre a maravilhosa semente do fagopyrum:

Como mencionei acima, o fagopyrum não é um cereal. Cereais são espécies de gramineas (gramineæ), como trigo, centeio, aveia etc...

O fagopyrum é uma variedade de plantas da espécies das polygonaceae, uma família com mais de 1200 espécies ao redor do mundo mas que se destaca pelas espécies nativas das regiões temperadas do hemisfério norte. As polygonaceae são utilizadas largamente na produção de flores ornamentais e alguns genus, como o fagopyrum, são voltados para a produção de alimentos. As principais espécies de fagopyrumsão: o fagopyrum esculentum domesticado na China mas que é conhecido como fagopyrum japonês e o fagopyrum tataricum domesticado no Tibet. A espécie Fagopyrum esculentum foi domesticada no sudoeste da Ásia há mais de 6000 anos e era consumido em toda a região da China, Nepal, Tibet, Paquistão, Myanmar e Japão. Há centenas de outras espécies de fagopyrum, principalmente selvagens nativas da América do Norte.

O Fagopyrum esculentum migrou do Sudoeste da Ásia para a Ásia Menor, oriente médio e Europa Oriental. Apesar de suas centenas de fagopyrum selvagens, "o trigo sarraceno" chegou às Américas pelas mãos de imigrantes russos, poloneses, húngaros, bulgaros, ucranianos e afins que introduziram o consumo da farinha da semente do fagopyrum e algumas receitas. Uma das receitas mais tradicionais é aquela do blini, as mini panquecas russas consumidas em todo mundo e a kasha, um mingau de fagopyrum tostados.

O Fagopyrum esculentum se adapta bem a solos montanhosos e pobres e era fonte de nutrientes para as populações da região dos Himalaias. O tal trigo sarraceno, diferentemente dos trigos, sobrevive bem com pouca água em regiões mais secas, em solos ácidos (solos desprovidos de nutrientes são mais ácidos).

Origem do nome: (pesquisa pessoal, não se acha isso na Wikipedia)

O nome "trigo Sarraceno" relaciona o "tal trigo" aos povos conhecidos como Sarracenos. Sarracenos ou Mouros eram alguns dos nomes usados pelo mundo cristão, durante a idade média, para se referir aos árabes em geral, os povos não-cristãos da época. O uso do termo "muçulmano" ainda não havia surgido na idade média. O artigo da Wikipedia em português sobre este tema é curto, mas esclarecedores. Ao que tudo indica, pelo fato da casca da semente do fagopyrum ser escura, ele tenha sido batizado como tal em referência a cor da pele dos sarracenos. Na França ele é chamado apenas de Sarrasin (Sarraceno). Mas como você podem ver nas fotos, depois de descascado, a cor do fagopyrum é bege esverdeado...


Eu acredido que apesar do fagopyrum ter chegado à Europa Oriental via Asia menor e Oriente Médio centenas de anos antes das invasões muçulmanas, é possível que parte da Europa Ocidental (França, Espanha e Portugal principalmente) tenha sido apresentada às sementes apenas com as invasões sarracenas. Ainda que a semente de fagopyrum não seja típica da dieta dos países do oriente médio é possível que, durante o período de guerras de invasões, os soldados sarracenos carregassem as sementes consigo por serem fáceis de consumir. Elas levam apenas cinco minutos para cozinhar em água e com elas pode-se fazer um minguau altamente nutritivo para alimentar qualquer soldado em tempo de batalha.


3 comentários:

Alcina disse...

Já me ri com esta sua divagação sobre o nome do sarraceno, mas parece-me difícil mudar, se o nome já vem das invasões dos mouros e cristãos :-))
Mas granola também é um "nomezão"sabe que eu só soube o que é granola depois de ir ao Brasil e ver isso nos hotéis :-) é um nome também bem engraçado, o corrector do google não o reconhece e nem tem sugestão para corrigir :-)
Pois voltando ao nome do sarraceno penso que sementes de (fagopyrum) ou uma aproximação deste fago...parece-me bem melhor :-)

Anônimo disse...

Olá! Gostei da receita, vou pedir emprestado, posso? Achei engraçado que aí é mesmo frio, não é? nada está no estado líquido. Aqui no Algarve (Portugal) fica tudo líquido a partir da Primavera, o óleo, o mel! Tenho lido que o tal do trigo Sarraceno, que afinal não trigo, é mais adequado para climas frios. Concorda?
Dora

Recuperar a Ação disse...

Grão-negro é simplesmente lindo e totalmente adequado!

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