sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Xarope de Groselha, com e sem Açúcar





O melhor verão de todos os tempos está terminando por aqui. Muito calor e sol, tudo bem acima do padrão escandinavo desta estação, onde verão não é sinônimo de calor. Há verões por aqui quando os dias são apenas menos frios do que o inverno, com um pouco menos chuva em dias mais longos, mas de sol cansado. Sol cansado? Vai entender o que eu quis dizer com isso... Mas parece que o ano de 2014 teve o verão mais quente dos últimos 70 anos, e foi sensacional. Como de costume, colhemos montes de groselhas nos arbustos do nosso jardim. Groselha é uma frutinha suculenta, de sabor levemente terroso, azedinha, de vermelho profundo e por isso é muito usada em geléias, molhos e no famoso xarope feito do suco a partir das frutas cozidas e reduzido. O xarope é em geral consumido como refresco.



Os arbustos carregadinhos de groselhas são lindos demais...


Apesar da minha convicção a cerca dos benefícios de viver uma vida sem adição de açúcar, eu preciso frisar que faço diversas coisas com açúcar, entre elas faço geléias e xaropes de frutas. Eu concordo com Dr. Robert Lustig e nesta entrevista ele coloca claramente que não se deve banir o açúcar, mas aceitar que assim como outras drogas, bebida e cigarros, o açúcar é uma substância que vicia e o excesso de açúcar é principal causa de uma série de doenças que afetam a sociedade moderna. Com açúcar, todo cuidado é pouco. Por isso, se você puder leia a entrevista e depois compre o livro do Lustig. Ele vai mudar a sua vida. E por isso, por mais que eu evite açúcar, eu também faço coisas com açúcar para o Per e as crianças, muito poucas, mas faço. As geléias e licores em geral também servem como presente para os amigos e familiares.


Os gatinhos são a melhor companhia para uma colheita de groselhas...


Em geral, quando temos groselhas, eu faço geléia de groselha e a minha receita você encontra aqui. Mas as crianças não gostam de geléia de groselha, preferem comer as frutinhas frescas ou o refresco de groselha feito com o xarope e por isso este ano eu fiz apenas xarope, COM e SEM adição de açúcar. As receitas abaixo são praticamente idênticas, a única diferença é a adição de açúcar o que deixa o xarope mais denso, melado e com validade mais longa. O xarope de groselha adoçado, se engarrafado em vidro esterilizado e depois fervido para ser lacrado contra ar, pode ser guardado por seis a nove meses fora da geladeira, se protegido do sol e calor. O xarope sem açúcar pode se engarrafado corretamente pode ficar na geladeira por cerca de dois a três meses.



Xarope de groselha SEM Açúcar

1,5kg de groselhas frescas ou congeladas
500 ml de água
Raspas de uma baunilha ou meia colher de chá de baunilha em pó
Duas colheres de sopa de suco de limão verde ou amarelo



Xarope de Groselha COM Açúcar

1,5kg de groselhas frescas ou congeladas
400 ml de água
300 gramas de açúcar
Raspas de uma baunilha ou meia colher de chá de baunilha em pó
Duas colheres de sopa de suco de limão verde ou amarelo


Como:


Coloque as groselhas e a água numa panela de fundo grosso e deixe cozinhar em fogo médio-baixo até ferver, abaixe o fogo se necessário e deixe as frutinhas cozinharem até que as groselhas se desfaçam totalmente. Se preferir use um amassador de batatas para ajudar e esmague as groselhas enquanto elas cozinham. Se a água começar a evaporar rápido demais adicione um pouco mais de água. Enquanto as groselhas cozinham coloque uma peneira grande de metal sobre um pote ou jarra e forre com uma toalha de linho ou um pano de drenar queijo. Quando as groselhas estiverem bem desfeitas e macias transfira as frutas para a peneira forrada com o pano de linho grosso e deixe-as drenar por cerca de duas horas, ou uma noite toda. Se deixar pingar a noite inteira cubra e coloque na geladeira para evitar moscas ou poeira. Não pressione as groselhas para evitar que o xarope fique nebuloso pois você quer um líquido vermelho transparente.

Depois de drenar o suco das groselhas, transfira para uma jarra medidora e confira a quantidade de suco obtida. A quantidade de suco vai determinar a quantidade de açúcar. Se você for preparar um xarope sem açúcar, não vai precisar calcular mais nada. A receita da minha sogra diz que a quantidade de açúcar do xarope deve ser igual a metade daquela de suco, por exemplo: se você obtiver 800ml, adicione 400ml de açúcar (duas xícaras de 200ml). Mas eu não segui esta regra. Eu obtive 800ml de suco de groselhas mas usei apenas cerca de 300ml de açúcar (uma xícara de 250ml bem cheia).

Para o xarope sem açúcar: Coloque os 800 ml de suco, a baunilha e o suco de limão de volta na panela e deixe que ferva. Reduza o fogo para médio-brando e cozinhe por 15 a 20 minutos.

Para o xarope com açúcar: Coloque os 800 ml de suco, os 300ml de açúcar, a baunilha e o suco de limão de volta na panela e deixe que ferva. Reduza o fogo para médio-brando e cozinhe por 10 minutos. Cuidado para não cozinhar mais do que o necessário para não virar geléia.

Desligue o fogo e coloque o xarope quente em dois ou três vidros esterilizados (i.e. fervidos por 10 minutos e com as tampas lavadas com água fervendo) e ainda quentes. Feche os vidros sem pressionar demais e deixe esfriar totalmente. Quando esfriar as tampas vão "popar" e formar vácuo. Se usar garrafas, use a mesma técnica. Xarope com açúcar pode resistir até 9 meses se os vidros forem propriamente esterilizados e lacrados. Xarope sem açúcar pode resistir até 3 meses, em geladeira, se os vidros forem propriamente esterilizados e lacrados.



E no fim eu dei uma decoradinha as garrafas com masking tape para simular um lacre e embelezar um pouco o vidro.




Na hora de servir adicione um dedo de xarope para um copo de 250 ml de água gelada. Se você fez o xarope sem açúcar e desejar adoçar use um adoçante de sua preferência. Eu recomendo gotas de stevia pura e/ou stevia com eritritol. Cuidado com as misturas de stevia com adoçantes artificiais.

Sirva com gelo...

PS. A receita das panquecas de trigo saraceno virá na próxima postagem.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Pãezinhos Enrolados de Espelta e Centeio com Recheio de Canela. Sem Adição de Açúcar...


Uma das maiores paixões norueguesas é um pãozinho doce enrolado e recheado de canela, açúcar e manteiga, o chamado kanel boller e eu já escrevi sobre o kanel boller aqui. A receita típica é naturalmente carregada de açúcar e, além do açúcar da massa e do recheio, um kanelboller típico ainda leva uma calda de açúcar por cima do pão. Um verdadeiro exagero. Mas se você puder, dá para rachar um kanel boller com alguém que você ama e curtir sua meia dose de açúcar sem culpa. Mesmo podendo, por que não fazer uma versão um pouco menos junk?

O problema com o açúcar é que: 1. faz mal, 2. engorda e 3. vicia, e é um vício dificílimo de abandonar pois ao redor do açúcar há toda uma imensa convenção social te convidando permanentemente a comer alguma coisa doce e será muito difícil evitar. Então, se você não quiser correr riscos, melhor achar alternativas para saciar o desejo de comer um pãozinho doce com recheio de canela. E aqui vai uma receita alternativa com substitutos do açúcar e farinhas integrais com uma quantidade maior de fibra para reduzir o ritmo acelerado dessa bomba de carboidratos...




Eu já confessei por aí que acho todos os substitutos do açúcar horríveis. Quando faço uso deles é para criar alguma alternativa realmente saborosa que justifica o uso do substituto ao invés do açúcar branco comum e é o caso desses pãezinhos, feitos para uns visitantes muito especiais. Fiz com o adoçante eritritol + stevia. Mas acho importante lembrar que sempre que uso a palavra "adoçante" eu estou me referindo apenas aos substitutos do açúcar de origem orgânica e não artificiais, que por diversos motivos são considerados seguros para uso doméstico e na indústria alimentícia.

Você sabe quais são os adoçantes totalmente artificiais que eu nunca usei e jamais usarei? são aqueles artificiais, produzidos a partir de compostos químicos e que são exatamente como remédios e exatamente como eles, cheios de contra-indicação e problemas. Esses são os adoçantes artificiais que eu acho que ninguém deveria usar:aspartame, sacarina, ciclamato e sucralose,

Em adoçantes artificiais eu não coloco a minha mão
. Mas da sua vida que decide é você.

Quando menciono adoçantes, ou substitutos de açúcar, me refiro a uma classe menos nefasta de adoçantes, aqueles do grupo dos Poliols os álcools de açúcar e a Stevia. Todos os adoçantes "poliols", ou "álcools de açúcar" são compostos orgânicos que ocorrem naturalmente a partir da fermentação de frutas e vegetais diversos. Todos os poliols/alcools de açúcar tem os nomes terminados em "OL, mas nem todos podem ser consumidos por humanos. Lembre que Metanol e Etanol, por exemplo, fazem parte deste grupo e são extremamente tóxicos.


Os alcools de açúcar (sugar-alcohols) contém em geral baixas calorias, alguns deles são registrados como contendo "zero caloria", mas conteúdo exato do eritritol, por exemplo, é de cerca de 0,2Kcal/g enquanto o açúcar tem 4kcal/g. Em alguns países (EUA e Japão) os poliols são registrados como contendo zero calorias 0kcal/g pois o valor de 0,2kcal é arredondado para baixo. No caso do eritritol, que uso nesta receita, 90% dele é absorvido pelo sangue ainda no intestino delgado e apenas 10% é entra no colón, diferentemente de outros adoçantes desse grupo, como xylitol e sorbitol que muito frequentemente podem causar um efeito laxativo bem incômodo.



O adoçante que eu uso neste pãozinho é a steviosa, uma mistura de 98% eritritol e 2% stevia que tem cara de açúcar cristal, mas não é. O Erythritol, em português Eritritol pode ser usado tanto puro como misturado com stevia nesta receita. A diferença é que puro o eritritol é 50% menos doce do que o açúcar, enquanto a mistura dele com a stevia ajuda a criar um produto com consistência parecida a do açúcar e tão doce quanto. A mistura é tão desigual pelo da stevia ser 40 vezes mais doce do que o açúcar.

De qualquer maneira, muito cuidado na hora de usar os danados dos adoçantes, é necessário escolher com muita atenção e paciência o que usar e o que cozinhar o tipo de adoçante que você escolheu, pois os resultados podem ser surpreendentes. Algumas coisas funcionam melhor do que outras. Pães são um bom começo, para quem nunca usou esses produtos e quer se aventurar. A massa responde da mesma forma, sem problemas, pois a quantidade de açúcar na massa é pequena. O eritritol com stevia funcionam muito bem no recheio também, e a não faz a menor diferença na mistura com canela pão no recheio do pão. Importante: o resultado final é significativamente menos doce pelo simples fato de levar bem menos adoçante do que o equivalente em açúcar da receita original.




Pãozinho Doce de Espelta e Centeio com Recheio de Canela (Kanelboller)

Massa:
500 ml de leite
1/2 xícara de manteiga + manteiga para pincelar
4 colheres de sopa de stevia em pó (*ver explicação acima)
10g de fermento seco
3 xícaras de espelta integral
2 xícaras de centeio integral
1/2 colher de chá de sal
Pitada de cardamomo em pó ou uma semente de cardamomo esmagada (opcional)

Recheio
100 gramas de manteiga derretida
Eritritol puro e/ou açúcar de stevia em pó a gosto
5 colheres de sopa de canela em pó

Como:

Numa panela esquente levemente o leite e a manteiga com a stevia em pó (mistura de stevia e eritritol) e o cardamono para derreter a manteiga, o açúcar/stevia e aromatizar o leite com o cardamomo. Não deixe ferver e deixe a mistura amornar e quando estiver aproximadamente 40C. Adicione o fermento seco e a mistura das farinhas de espelta e centeio e o sal e usando as mãos ou uma colher de pau (ou use uma máquina se preferir) misture até incorporar totalmente e formar uma massa macia e grudenta. Se usar semente inteira de cardamomo amassada, remova a semente antes de adicionar o fermento e a farinha e descarte. Coloque a massa numa bacia esfarinhada e deixe a massa descansar coberta para crescer por pelo menos um hora. Depois de uma hora transfira a massa para uma superfície esfarinhada e comece a abrir a massa usando as mãos. Se a massa ainda estiver muito grudenta adicione até uma xícara mais de farinha, mas evite adicionar farinha demais para não resultar num pãozinho muito seco.

Abra a massa sobre uma superfície esfarinhada até formar um retângulo de aproximadamente 20 X 50 cm. Quando a massa estiver do tamanho e espessura desejadas, espalhe uma camada de manteiga derretida em toda a superfície do retângulo. Misture a canela com o açúcar/stevia e salpique uma camada generosa por cima da manteiga. Enrole a massa sobre a parte menor do retângulo até formar um rocambole de massa. Feche bem as pontas, até que grudem,. Corte fatias do rocambole de massa com aproximadamente 2 cm de largura. Coloque as fatias de massa cortadas em uma forma grande, retangular ou redonda. Deixe crescer por pelo menos 45 minutos.

Asse a 200C por 15-20 minutos ou até que estejam bem dourados. Quando retirar do forno pincele manteiga sem sal nos pãezinhos para dar brilho... Se preferir, cubra com calda de açúcar (sic).


quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Noites de verão, de calor e reflexão...



Queridos,

Muito obrigada pelos muitos emails cheios de carinho e pela atenção que me é dedicada durante meus longos períodos de silêncio. Adoro receber emails, os comentários no blog, vocês me animam muito. Mas eu ainda ando devagar. Sabe aquela coisa de perder a voz interior? Estou assim, sem voz, precisando encontrar meu tom, perdido por aí. E no meio do processo muita coisa boa tem acontecido, eu nunca mudei tanto, vivo um intenso processo de transformação que é excitante mas que no fim das contas é o que tem me deixado em silêncio.

Se por aqui ando quieta, minha vida anda movimentada e cheia de atividades e novas possibilidades. Além disso eu nunca li tanto, nunca aprendi tanto na minha vida. Mas ando numa fase difícil, entre outras coisas, em crise com minha vida de expatriada, sofrendo as muitas dores do longo exílio, ainda que voluntário. Mudança de país é um processo de adaptação difícil, trabalhoso, surpreendentemente longo e, mesmo depois de 10 anos vivendo aqui na Noruega, ainda sofro e me irrito profundamente com a vida na Europa... Não é fácil viver aqui, não é fácil para mim viver fora do Brasil, mas também não é fácil fazer as malas e voltar, não depois de tantos anos. São tantos detalhes complicados que o melhor é tentar se adaptar mais um pouco, rever posições e tentar renovar as energias e o amor pelo país onde se vive...



Neste verão maravilhoso que está dando as graças por aqui este ano, eu e Per temos saído muito, fizemos novos planos, reorganizamos nossa casa, nosso jardim e tudo mais. E o calor foi de grande ajuda, o calor me inspira e aumentou a minha disposição de sair de casa e de circular por aqui e, de uma forma, ou de outra, me alimentei novamente de Noruega, das coisas boas daqui, das coisas que me inspiram e me animam. Nunca toquei nesse assunto aqui no blog, não abertamente... mas imagino que eu amor incondicional pelo Brasil sinalizava meu vínculo forte, meu apego, meu interesse permanente e, indiretamente, demonstrava minha vontade de viver no meu país e de deixar de viver no país onde vivemos hoje. Mas nunca tinha falado isso abertamente. Do quão difícil é viver longe de casa. Mas eu não decido as coisas apenas em meu nome, somos uma família e todas as decisões aqui em casa precisam ser boas para todo mundo e isso não é uma coisa fácil de se atingir...

E nestes dias de verão, dias longos de junho e julho, sem a escuridão da noite, quando o sol brilha até as 23h, 23h30, eu me abasteci de luz e de energia vital. Incrível como o sol faz toda a diferença, iluminou tudo e produziu uma nova vida. Eu também refleti muito sobre a realidade dos sonhos, pois minha vida é uma parte da vida que sonhei quando menina, quando sonhava viver numa terra onde não houvesse noites... E não é que eu consegui! Claro que tudo tem um lado ruim. Quando menina eu detestava a noite, e sonhava com um lugar onde os dias não acabassem nunca. E nesse mesmo lugar sem noites, durante longos meses do ano, os dias são curtíssimos, praticamente sem luz do sol. E como todos os lugares do mundo, não é perfeito, é diferente de tudo o que eu mais prezo, mas é um lugar muito bom e muito generoso comigo, e eu sou muito grata por ser tão bem recebida por aqui.

Mas o fato é que nenhum lugar fora do Brasil jamais me será suficiente, onde quer que eu vá, onde quer que eu viva, um imenso pedaço de mim vai estar sempre faltando...




Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...