
A vida numa cidade pequena, pequenininha mesmo, tem sido uma maravilha para mim. As muitas delícias desta vida que eu tanto aprecio podem parecer entediantes e insuficientes para muitos, entendo, mas é tudo o que eu desejava depois de viver a maior parte da minha vida entre Rio de Janeiro e São Paulo. Não fossem as pessoas que eu deixei nas duas cidades e eu não sentiria a menor saudade das cidades em si. Eu amo o Rio, imensamente, claro, eu sou o Rio, carrego o Rio comigo. Eu também amo São Paulo, assim como amo Fortaleza, Florianópolis, Belo Horizonte e Maceió... mas, enfim, cidade grande pode até ser divertida, algumas vezes, mas cansa, exaure. E a mim, cansaram.


No Rio eu cresci numa casa grande, com muitas árvores no quintal, até coqueiro tinha. Em São Paulo também vivi muitos anos numa casa enorme, construída num terreno imenso na região da Granja Viana, no município de Cotia, periferia da Cidade de São Paulo. Lá eu plantava e colhia abacates, bananas, amoras, vegetais e muitas flores. Plantamos uma paredão de helicônias que no fim formava uma imensa cerca viva diante da casa, era um espetáculo... Eu amava cortar as longas flores das helicônias e coloca-las num vaso alto na mesa da sala, ficava tão lindo.
Na casa da Granja acho que chegamos a ter seis abacateiros produzindo abacates quando saimos de lá. Naquela época (entre 1996 e 2002) o trânsito diário entre Cotia e SP já era infernal, imagino o que não está hoje. Não aguentaria cruzar aquela distância diariamente nos dias de hoje... Já no Rio, onde vivíamos antes de nos mudarmos para cá, aproveitamos a vida adoidado no Recreio, ou melhor, no Pontal, uma curva linda do Rio, cercada de mar e de chácaras de flores por todos os lados. Mas aqueles lugares lindos aos poucos estão dando espaço para um sem fim de condomínios feios, cercados de grades e de carros por todos os lados, puro caos está virando o Recreio.



Hoje a maior alegria da minha vida é viver longe das grandes cidades... Enquanto eu precisava da cidade grande eu escolhia viver na periferia delas, sempre que pude, principalmente depois que passei a ter minha própria família. Mas o trânsito e o caos também me cansou. Hoje eu vivo na periferia de uma pequena cidade, pequena mesmo. Afinal,
Trondheim e seus 173.486 habitantes é praticamente uma "vila" se comparada com Rio ou SP. Trondheim é menor do que a Barra da Tijuca no Rio e um pouco maior do que o bairro da Lapa em SP. Mas atualmente vivemos em
Hommelvik, o centro administrativo da pequena
Malvik, município com 12.000 habitantes na periferia de Trondheim. Eu adoro estar aqui, numa cidade pequena que também é grande, pois é cheia de possibilidades. Se assim não fosse, como seria possível abrir uma loja de alimentos orgânicos e gourmets no centrão de Hommelvik?


Ano passado fomos até Amsterdã de carro, durante as férias de verão, e foi um inferno. Um verdadeiro incômodo andar pelas as ruas lotadas de gente com pressa, o serviço impessoal, sujeira, polícia por todos os lados, cheiro horroroso por todos os lados... A mesma sensação eu tive em Paris, mais uma vez, quando em fevereiro paramos ali vindo do Rio. Impressionante, mas Paris me parece ainda mais suja, mais fétida, mais desconfortável e desumana no inverno. Cidades excessivamente turísticas parece que me incomodam ainda mais. Talvez o Rio passe a mesma sensação para o visitante, mas eu lá não sou visitante. A última cidade que me alegrou visitar foi
Berna, e que é ainda menor do que Trondheim.


Alguns dos benefícios de morar numa cidade bem pequena são bem óbvios, como a facilidade para manter e viver num casa enorme, poder ter um jardim imenso cheio de frutas e flores, o silêncio, a não poluição visual-auditiva-respiratória. Mas, principalmente, numa cidade bem pequena cada pessoa, cada pequeno esforço ou ação individual faz uma grande diferença. Na pequena cidade tudo conta, todos são considerados, ninguém parece ser deixado de fora. Para o bem, e para o mal, numa cidade pequena todos se conhecem, todos se identificam ainda que nem sempre amigavelmente. Eu diria que há mais controle sobre a vida, tenho a sensação de que estamos menos reféns do mundo exterior do que das grandes cidades.
Ontem eu fui lá fora, o sol brilhava, estava quente, os morangos vermelhos e, em coisa de 15 minutos, voltei com duas xícaras de morangos. Nem todos os anos os morangos produzem tão bem como este ano. Ano passado não colhemos quase nada. É que a mágica de fazer a terra produzir é complexa e muda sempre, um ano nunca é igual ao outro. Na mesma hora joguei as frutas todas na panela e fiz essa geléia. A mistura do morango com o morango silvestre produz uma geléia bem diferente da geléia de morango comum, é uma outra esfera, já que o sabor do morango silvestre é bem diferente daquele do morango comercial. Difícil de explicar e simplesmente delicioso de aproveitar. Morangos e framboesas silvestres, mais um benefício da vida no campo...

Geléia de Morangos e Morangos Silvestres do Jardim
1 xícara de morangos orgânicos
1 xícara de morangos silvestres orgânicos
1 xícara de açúcar de cana orgânico
suco de uma banda de limão orgânico
Como:
Coloque os morangos picados, se preferir deixe-os inteiros, e os morangos silvestres inteiros na panela, adicione o açúcar e o limão e deixe que ferva em fogo alto. Quando ferver reduza e deixe cozinhar por cerca de 10 minutos ou até que a geléia adquira o ponto. Para testar coloque uma colheradinha num pires gelado, deixe um minuto e toque a geléia para sentir. Se estiver ainda muito líquida cozinhe um pouco mais e faça novos testes sempre em um pires gelado pois a geléia quando esfria endurece. Transfira a geléia fervente para vidros fervidos e feche de acordo com as instruções do produtor.
Rende dois vidros de 200ml.