terça-feira, 31 de maio de 2011

Geléia de ameixas embebidas em cachaça com chocolate... um doce único e especial




Com duas ameixeiras no fundo do nosso jardim, árvores que herdamos com alegria do antigo proprietário da casa, eu ainda me surpreendo todos os anos diante da "montanha" de ameixas que enchem os galhos das pequenas árvores. Apesar de serem árvores bem antigas, de tronco grosso, são de pequena altura, diz que é em função da espécie de ameixas mas eu acredito que a pobre localização das árvores impede que as ameixeiras cresçam livremente, já que elas dividem uma esquina do jardim com várias outras e estão cercadas por duas imensas e dominantes bjørk, betula ou birch em inglês e uma árvore de lilás e, talvez por isso, acabaram ficando meio cotózinhas...




Eu já escrevi muito sobre nossas ameixeiras e nossas ameixas e algumas receitas que eu experimentei com as ameixas do nosso jardim. O que já está virando um clássico é o licor de ameixas que alguns sortudos amigos já ganharam de presente. Navegue pelos links abaixo para ver a receita do licor de ameixa e outras receitas com ameixas.

A receita do licor de ameixa e o modo de fazer

O licor de ameixas de ameixas depois de pronto

Bolo de ameixa com iogurte

Geléia de ameixas de duas cores

Molho tipo chutney de ameixas

Ameixas secas em casa

Crumble de aveia e ameixas + sorvete de iogurte com ameixas





A geléia que eu publico hoje é diferente de tudo o que eu já fiz antes. É que este ano, depois que eu filtrei o licor de ameixas que fiz em outubro do ano passado e que ficou mais de seis meses maturando, eu recolhei as ameixas murchas mas que estiveream banhadas em açúcar e cachaça, retirei os caroços de todas elas e joguei as danadas mezzo destroçadas numa panela de fundo grosso. Na panela, junto com as ameixas, adicionei um tanto de água até cobrir e fervi, depois adicionei um tanto de açúcar e deixei cozinhar mais um pouco para dar uma engrossada. Lá pelas tantas eu achei que as ameixas estavam pedaçudas demais e processei a mistura na panela mesmo com um mixer de mão e deixei ferver mais uma vez.

O resultado foi uma geléia negra de ameixas embebidas em cachaça, mas a geléia ficou um tantinho doce demais para o nosso gosto. Para reverter a situação do excesso de açúcar eu adicionei uma barra de chocolate amargo com 70% de cacau, picado, à geléia ainda fervendo e misturei bem para dissolver todo o chocolate. Coloquei a geléia ainda quem em vidros esterilizados e depois eu fechei de modo a retirar todo o ar dos vidros e formar vácuo (siga as instruções do fabricante do vidro).

Rendeu cerca de 1,4kg de geléia. A geléia de ameixa ficou bem preta e com a adição do chocolate ficou um marrom avermelhado fantástico. O sabor ficou perfeito, suave e percebe-se bem o sabor das ameixas, do chocolate e da cachaça ao fundo.




Obs. A receita dessa geléia é muito específica pois foi feita reciclando ameixas que eu tinha usado para produzir licor e, por isso, ficou um doce único, difícil de repetir. Mas se você deseja fazer eu recomendo usar ameixas secas, sem caroços deixadas de molho em cachaça por cerca de dois dias. Depois filtre as ameixas, use a cachaça para alguma outra receita e use as ameixas embebidas em cachaça para fazer a geléia.



Geléia de ameixa com chocolate


Cerca de 1 kg de ameixas secas orgânicas embebidas em cachaça
Cerca de 400 a 500 gramas de açúcar de cana orgânico
meia colher de chá de sementes de baunilha orgânica
água
80 a 100 gramas de chocolate amargo orgânico com 70% de cacau

Como:

Ferva as ameixas com água e açúcar até amolecer as ameixas que estavam secas e engrossar um pouco a mistura. Se preferir pique as ameixas antes ou use um mixer para triturar a mistura depois. Picar ou processar as frutas ajuda a obter uma geléia mais homogênea evitando que fiquem uns pedações de frutas. Se depois de processar a geléia ficar grossa demais, adicione um tanto de água e deixe ferver novamente. Quando a geléia ferver deixe cozinhar por cinco minutos, desligue o fogo e adicione os pedaços de chocolate mexendo vigorosamente para incorporar. Transfira a geléia ainda quente para potes esterilizados e siga as instruções do fabricante do vidro para formar o vácuo.

Rende cerca de 1,4 a 1,5 kg de geléia de ameixa e chocolate.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Doce Vika: a autoentrevista



Para tirar dúvidas e esclarecer a todos que me perguntam sobre o projeto da loja eu produzi uma autoentrevista, razoavelmente bem humorada pois imagino que esta é uma ótima forma de esclarecer todo mundo ao mesmo tempo, agora.


Por que você resolveu abrir uma loja?


Bem, confesso que, abrir uma loja sempre foi uma fantasia minha, acho que é sonho de todo mundo, não? Desde menina que eu me divertia com a idéia de ter uma loja, adorava brincar de loja, essas coisas. No fim eu acho que depois de tanto desejar e falar de loja as coisas acabaram acontecendo. Mas a coisa toda foi bem devagar, a "Doce Vika" levou mais de três anos para sair do sonho para a realidade. É um projeto muito pessoal e um negócio e a união das duas coisas requer muito cuidado. As vezes, quando eu tinha dúvidas, o Per também ficava em dúvida e o castelo de cartas desabava por um tempo e depois voltava. A primeira vez que desisti foi depois que o meu irmão morreu e eu dei para trás totalmente. Mas logo depois, exatamente em função da perda do meu irmão, diante da constatação óbvia da brevidade da vida, dos riscos constantes a que estamos expostos, eu decidi que não abrir a loja seria uma grande covardia. Não me jogar no projeto iria me fazer mais mal do que dar errado e ir a falência. A vida é essa coisa tão fugaz mesmo e então decidimos que, "quer saber? vamos abrir do jeito que for", refizemos os planos e abrimos.




Assim? Na maior?

Exatamente, assim, na maior. É que de uma hora para outra uma lojinha, uma loja de rua pequenina, onde funcionava uma loja de flores bem fofa, ficou vazia, com placa de aluga-se. No tal local funcionou por mais de 50 anos uma loja de flores, loja que teve diversas donas, sempre mulheres e o mesmo nome: Vika. A última dona carregou o negócio dela e suas flores para uma loja nova e imensa num recém inaugurado shopping center, alguns quilômetros dali. E nós então pegamos a lojinha fofa, agora vazia e retomamos nossos planos de abrir nossa loja ali, naquele lugarzinho. Decidimos que tudo indicava que seria melhor começar uma loja fora de Trondheim. E ali, ao invés da loja de flores, funciona agora a nossa lojinha, um loja bem pessoal, com estilo de loja de bairro, de armazém... uma coisa mais ou menos assim.



Como foi que tudo começou?

Eu nunca pensei que iria abrir uma loja aqui, na Noruega. A loja dos meu sonhos tinha um perfil diferente e acontecia dentro de um outro cenário. Durante anos planejei e sonhei em abrir uma loja-torrefadora de cafés especiais, junto com amigo, em São Paulo. Quando fui trabalhar no Valor Econômico eu me interessei muito pela lógica (cruel) dos negócios nos mercados agrícolas. Eu tinha feito MBA em Derivativos, dissertação sobre a especulação com os grãos de café arábica e lá pelas tantas eu queria, porque queria, comprar os grãos dos apaixonados fazendeiros que eu conheci no processo e produzir os meus próprios cafés. Eu sabia identificar grão e produzir o tipo de café que eu gostava e queria beber. Mas eu não queria só produzir café ao meu gosto mas também, e de certa forma, contribuir para garantir que o bom café ficasse livre da especulação, livre das negociações do mercado e que pudesse ser consumido pelo público brasileiro e não ser exportado. Isso tudo antes de São Paulo assistir a abertura em série de lojas de cafés especiais que começou talvez com a abertura do café Suplicy no começo da década passada e que parece não parar mais. Mas aquele era um momento de crise para o café, os grãos perdiam valor... No fim desisti de tudo, desisti de São Paulo, voltamos para Rio e depois decidimos vir para a Noruega.





Por que na Noruega?

Quando eu penso "por que Noruega?" uma série de motivos não verdadeiros vem a mente na mesma hora. Poderia dizer que abri a loja pois a vida de imigrante na Noruega é difícil, porque uma imigrante altamente qualificada não consegue um emprego a altura da sua qualificação, porque sinto uma falta danada de muitos alimentos quando faço compras nos mercados noruegueses, porque sinto falta de alimentos brasileiros ou porque sinto uma falta enorme do Brasil. Afinal, tem coisa mais batida do que um imigrante abrir loja de alimentos? Mas, apesar das afirmações acima não serem falsas, elas não listam o motivo que me levou a abrir a loja: foi a minha vontade de interferir com o local onde vivo. Sou ativista e nada passa batido inadvertidamente diante de mim. E o fato é que os noruegueses e todos os que vivem neste país estão comendo muito mal e as novas gerações conseguem ir piorando gradativamente, e o que já estava ruim vai ficando ainda pior.





Como assim?


O povo está comendo muito mal por aqui, não porque a comida norueguesa tradicional seja ruim ou sem qualidade. De jeito nenhum, muito pelo contrário. É que repete-se aqui o mesmo padrão que já predomina ao redor do mundo, influenciado pela estilo de vida contemporâneo que empurra a grande maioria das pessoas para dentro de um rodamoinho de falta de tempo e necessidade de economizar dinheiro. A pressão sobre as famílias se agrava com a expansão da agricultura industrial e produção de alimentos industrializados e processados. E o povo do planeta está que come cada dia pior, quando melhora-se um pouquinho a condição de vida de um povo, levados pela publicidade enganosa e pela sedução poderosa dos produtos processados, o povo vai e usa a graninha a mais para comprar porcaria.

No Brasil a coisa está assustadora, a nova classe média anda se superando no consumo de comida processada de baixa qualidade. É a farra do iogurte super-adoçado e colorido artificialmente, refrigerante, biscoitos e pães e massas prontas. A comida processada barata tem sido apontada no mundo todo como vilã da saúde pública, sendo produto da expansão da agricultura industrial e dos diversos apoios (diga-se subsídios) ao agronegócio no mundo. No Brasil o agronegócio é diversas vezes vilão pois não só polui os recursos naturais e o planeta, mas ainda explora e eventualmente escraviza sua mão de obra que vive em condições degradantes, o que contribui para a piora significativa da vida no campo. Já a especulação cruel do mercado de commodities trata os alimentos como se fosse petróleo, colocando todas as farinhas no mesmo saco. Quero dizer que comida não é tudo igual. Comida tem história, tem origem, tem tradição e sistemas tradicionais de produção. Dependendo do sistema de produção a comida pode causar mais mal do que a falta de comida.


A pessoa precisa estar atenta e saber escolher na hora de comprar comida?

A escolha do alimento que você compra para servir para a tua família é a decisão mais importante que você pode tomar na tua vida hoje. A decisão da comida afeta tudo: a tua saúde, a saúde da tua família, o clima do planeta, a sobrevivência do meio ambiente do país onde você vive, a realidade dos recursos naturais do país onde você vive, a saúde de quem planta/produz a comida que você compra, o desenvolvimento da região e/ou do país que produz a comida que você consome, os impostos que o governo vai te cobrar, a qualidade e o custo da saúde pública, o preço do seguro de saúde que você paga, a taxa da água da tua casa, da energia da tua casa e tudo o mais está ligado ao custo e ao sistema de produção de alimentos. Aí no Brasil, aqui na Noruega e no planeta inteiro.




Você pode dar um exemplo?

Sim. É um ciclo que pode ser explicado a partir do momento em que alguém compra uma comida vagabunda, i.e. um alimento processado. Imagine que o alimento em questão foi produzido com, digamos, carne ou leite de animais engordados a base de hormônios cancerígenos e alimentados com alfafa transgênica, imagine que o alimento foi engrossado com lecitina de soja transgênica, adoçado com xarope de milho transgênico, que foi frita e/ou amaciada com óleo de milho ou canola (colza) transgênica, que foi "temperado" com quantidades excessivas de açúcar refinado produzido a partir de cana de açúcar produzida em fazendas que sub-empregam seres humanos e que o sabor foi alcançado graças a uma quantidade excessiva de sal misturado. Esse alimento processado pode ser uma pizza calabresa congelada, hambúrgueres prontos, lasanha congelada, nuggets de frango, pacotes de biscoito, iogurte de chocolate ou um litro de leite de soja. Ao consumir o tal produto a pessoa está colaborando com o estabelecimento de uma realidade muito ruim, um mundo onde algumas pessoas que você ama vão desenvolver alergias horrorosas, canceres terríveis jamais vistos antes, diabetes, infecções, doenças autoimunes, doenças do coração, circulatórias e obesidade. Você e os seus vão ver mais pessoas que vocês amam ficarem doentes, eventualmente morrer e vocês vão sofrer. Crianças vão perder pais, mães, avós, avôs etc.. porque você decidiu achar que não vale a pena investir na comida que você compra.

E como muitas pessoas ficarão doentes os custos da saúde pública irão aumentar significamente, os planos privados vão ficar ainda mais caros, os benefícios trabalhistas mais difíceis de conquistar, o emprego fixo também pois não só você e sua família ficarão mais doentes, mas porque o camponês que produz o alimento com agrotóxico também vai ficar doente e vai haver mais exploração do agricultor e do trabalhador rural pois, como já se vê hoje, vai-se fazer de tudo para evitar que os trabalhadores rurais recebam os benefícios que lhes é de direito, como aposentadoria precoce por conta da contaminação por agrotóxicos, pois está demonstrado que haverá aumento significativo do número de camponeses demandando aposentadoria precoce pois o aumento do uso de agrotóxicos é impressionante e consequentemente as contaminações vão aumentar... quer mais? O Brasil já se tornou o maior consumidor mundial de agrotóxicos... dá vontade de sentar e chorar.



Por favor, continue...

Se você acha que apenas os camponeses são contaminados por agrotóxicos você está muito enganado. Sua comida já nasce contaminada. A chuva escorre o solo contaminado por agrotóxico e contamina tudo. Rios, lagos, lagoas, oceanos e aquíferos. As fontes de águas de diversos países a esta altura já estão altamente contaminadas por agrotóxicos. Assim como os peixes de rios e mar. Os níveis de mercúrio e metais pesados nos peixes que estão no alto da cadeia alimentícia marinha já estão acima dos limites aceitáveis em várias partes do mundo. Na verdade, eu costumo dizer que os frutos do mar já acabaram diante do grau de contaminação dos oceanos... quem comeu, comeu, quem não comeu não deveria comer mais. Principalmente peixes grandes como atum... E você pensa que é só o mar? O ar está ainda pior. O planeta está aquecendo significativamente com a emissão de gases do efeito estufa sendo que um dos gases mais perigosos é o óxido de nitroso (conhecido também como protoxido de nitrogênio) cuja sigla é N2O. O N2O é emitido em quantidade absurdas pela agricultura em função do uso excessivo de fertilizantes pela agricultura convencional. Veja o que a Wikipedia diz sobre esse gas "N2O is a greenhouse gas with tremendous global warming potential (GWP). When compared to carbon dioxide (CO2), N2O has 310 times the ability to trap heat in the atmosphere. É dramático.



O que você deseja com a tua loja então?


Eu desejo muito reverter um pouco o quadro de desinformação. Ajudar a informar uma parte da Noruega com os meu conhecimento e minha dedicação a causa dos alimentos orgânicos. Gostaria de contribuir para perverter a lógica dominante que funciona mais ou menos assim: o carro caro é o melhor, a roupa cara é mais bacana, o uísque 12 anos é o mais sensacional, mas as frutas, os legumas, o leite e a carne que você compra precisam ser baratos, produzidos na base do banho de agrotóxico, depois refinados, processados ou super-processado! Por favor NAO! Pense diferente. Lembre de mim na hora de querer comprar 3 ou 4 pacotes pelo preço de um. Pense qualidade e jamais quantidade e/ou volume. É isso que eu prego aqui na loja. E que o aumento do consumo de orgânicos vai levar a queda nos preços... aqui os preços dos orgânicos já começaram a cair significativamente.





'Pera aí, você fala demais, está me confundindo. Qual é a do teu negócio mesmo?


É uma loja de alimentos orgânicos e produtos de alta qualidade repleta de delícias especiais. É uma espécie de armazém de bairro, loja do interior, o que os ingleses chamavam de general store e os noruegueses conhecem como de handleri em versão século 21. Hoje cerca de 98% dos produtos nas prateleiras são orgânicos. Duas ou três coisinhas ficam de fora, mas são produtos tradicionais muito especiais ainda não certificados. Pode-se encontrar de tudo orgânico, tudinho mesmo, e meu projeto segue nesta direção. Mas hoje eu tenho alguns produtos não orgânicos maravilhosos, produtos muito especiais para mim e de altíssima qualidade. Não estamos totalmente fechados, o que pode ser orgânico e é bom será, o que é bom mas ainda não está totalmente certificado nós confiamos que um dia há de ser...





Qual o nome da loja?


Num primeiro momento o projeto da loja foi batizado de Vika Organic Gourmet que virou a razão social da empresa. Mas com o tempo surgiu o nome "Doce Vika" que é o nome da loja em si e da loja online que estará pronta em breve, assim espero. "Doce Vika" é uma referência ao filme A Doce Vida (La Dolce Vita), claro. "Vik" em norueguês quer dizer "baía" e "Vika" significa "A Baía", um nome que eu adoro... Carioca que sou adoro referências a baías de uma maneira geral...





Como as coisas funcionam na loja?

Nosso atendimento é do tipo lá em casa, muito informal. As pessoas entram curiosas, perguntam o que temos, pedem o que desejam e eu que estou sempre na loja ajudo, explico, mostro etc... Muita gente sabe o que quer e conhece o que temos e isso é bem legal. Um queria um óleo para fazer isso ou aquilo. Qual é o melhor? Como eu faço isso ou aquilo? Esse chá é isso ou aquilo. E eu ajudo. Uma matéria no jornal local divulgou meu passado, presente & futuro de pesquisadora, frisando que eu tenho mestrado em geografia na Universidade de Trondheim sobre agricultura orgânica e pronto, o povo todo fica menciona que me viu, fica confiante e com vontade de perguntar e acreditar. Vou colocar meu diploma na parede para dar ainda mais autoridade (risos!) ao meu norueguês capenga na hora de explicar. Como os supermercados e a indústria alimentícia são péssimos provedores de informação sobre produtos eu sou melhor do que eles nessa hora. Na verdade, é fato, se as pessoas não buscam as informações por conta própria e se não tem algum senso crítico em relação ao que a publicidade divulga elas vão em geral sair por aí comprando gato por lebre. E eu estou adorando ajudar, dar receitas e sugestões. O povo que pergunta, compra e depois volta feliz para elogiar e agradecer e isso é uma coisa muito legal de mercadinho pequeno.




E tudo em norueguês?

Sim, tudo em norueguês, sempre. Essa foi a única coisa que me deixou um tanto ansiosa e chateada já que eu confiava que meu ouvido estava preparado para ouvir toda sorte de dialetos do norueguêsm mas não está. Muitas vezes eu não entendo exatamente o que me perguntam, são tantos dialetos num mesmo condado que chega a ser inacreditável e aí eles precisam repetir para que eu possa entender. Dá um certo charme, me disseram, mas eu não sou do tipo que aceita errar... mas na hora de falar a gente se joga e fala, no que eu chamo "meu dialeto macunaímico" que mistura tudo o que aprendi da língua de Ibsen até hoje.



Você vai abandonar o blog, ele anda tão parado?

De jeito nenhum. Eu fico super triste diante da dificuldade de atualizar o blog com mais frequência, com o fato de não publicar com frequência e por isso não receber visitas, nem comentários, de pessoas queridas que não tem o que fazer no blog. Mas as visitas aumentaram , por incrível que pareça muita gente nova e interessante anda caindo no Sabor Saudade. Eu também fico tristíssima diante da dificuldade de visitar os blogs das amigas que eu gosto tanto. Mas enquanto a loja online não estiver pronta, com os produtos todos pendurados e fotografados, com entregas estruturadas eu vou ter que adiar algumas postagens e dar um tempo mais longo do que eu desejaria.

Você já começou o blog da loja?

Já e estou tentando alimentar com alguma regularidade... Mas não tem sido muito fácil. Mas já está no ar em norueguês e inglês apenas, infelizmente.


Você abandonou as pesquisas e os livros?


De jeito nenhum. Estou trabalhando mais do que nunca na minha tese de doutorado, escrevo um parágrafo novo quase todos os dias e aos poucos eu vou. A tese está sendo organizada na forma de artigos, são cinco artigos. O modelo de tese em forma de artigos se expande na universidade norueguesa e eu resolvi adotar. Minha tese trata de cinco temas que envolvem os projetos de conversão para agricultura orgânica das pequenas propriedade de agricultura familiar no sertão de Pernambuco. É um projeto apaixonante demais que eu não largo nem entrego para ninguém acabar... A coisa vai devagar, mas vai.



(Imagens exibem produtos e detalhes da nossa lojinha localizada numa baía dentro do fiorde de Trondheim, no condado de Sør Trøndelag, na região central da Noruega)

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Cerejeira em flor para um blog muito especial...



Ufa, voltei. Estava com muitas saudades daqui. Eu poderia ter voltado antes mas o blogger decidiu dar pau exatamente no momento em que eu tentava publicar uma postagem de retorno. E aí, é assim: se naquele momento não deu para publicar, ficou difícil achar outro depois e, por isso, só agora. Voltei com vontade, com saudade, voltei inspirada pela última postagem do blog She Who Eats. A postagem da Chika, que faz o blog She Who Eats, me encheu de vontade de fotografar, de sentar e de escrever. O blog da Chika é, na minha opinião, o mais interessante dos blog estrangeiros de comida. Se vocês ainda não tiveram a oportunidade de conhecer o She Who Eats clique no link deixe-se levar.




Eu já escrevi sobre o She Who Eats antes, sobre os sorvetes sem máquina que a Chika faz. Ela parece que fala para gente como eu, aquela espécie estranha que adora postagens gigantescas. Sim, eu estou neste grupo que gosta de postagens cheias de conteúdo, cheinhas de textos e de fotos. E a Chika adora uma postagem longa. Para quem não a conhece, ela é japonesa e vive em Nagano. Ela é uma apaixonada, entusiasta da boa comida, das aventuras culinárias, da qualidade, da comida sazonal e vê beleza em todas as coisas. Chika tem um paladar razoavelmente ocidentalizado o que pode-se ver nas receitas de sobremesas que ela publica, ainda que sempre com estilo totalmente japonês.



Entre outras coisas a Chika é uma fiel usuaria de mel, do chocolate branco, do doce de leite, dos sorvetes e usa mel em praticamente todos os doces que faz (ela faz até doce de leite com mel). Para me agradar não precisa de mais nada. Mas o blog dela é muito mais do que doces. Há viagens, há festas, há celebrações, há diferença e muito mais. A delicadeza das fotos e das produções eu credito ao estilo japonês da Chika. Ela recentemente foi finalista, mas não ganhou o prêmio de melhor blog de sobremesa na eleição da revista Saveur. Eu inclusive votei nela, mas não foi dessa vez.





A Chika escreve, na minha opinião, as postagens mais lindas dentre todas as postagens produzidas e publicadas em blogs de comida. Siga os links e delicie-se com algumas das minhas preferidas, em inglês, o que é muito melhor do que em japonês, não?

Doce cor de rosa e um pouquinho de sal
Sobre o final do começo do verão e uma viagem à Europa
Chocolate e amor
Sorvete e bolo de lichia
Uma estação e sorvete de cerejas
Japão e um sorvete de melão
Sorvetes de manga e outras sobremesas.
Uma viagem a Tasmânia
Macieiras ao amanhecer




Doce rosa e um pouquinho de sal é uma postagem única, a melhor que ela já produziu nos últimos tempos. Essa entrou no topo do ranking de melhor postagem de todos os tempos. Chika mostra mais uma vez receitas com extrato de flor de cerejeira, diversos usos para o açúcar de flor de cerejeira e para a flor seca e salgada. O extrato de flor de cerejeira é um produto muito característico do Japão. Com ele faz-se uma série de receitas muito típicas ainda que nem todas elas agradem a Chika que acha que os japoneses exageram e o sabor de flor fica muitas vezes forte demais, como ela mesma descreve.


Nessa postagem ela apresenta as possibilidades de uso deste ingrediente tão japonês em receitas típicas de diversas cozinhas européias. Então são scones, tartelettes, panna cotta, gelatina, muffin, crêpe, cheese cake, donuts, biscoitinhos amanteigados em meio a uma seleção de pratos bem japoneses que inclui doces e salgados com direito a bentos com gohan passado no pó de flor de cerejeira. Chika é uma fonte de idéias, de inspiração e de referência maravilhosa.



E, inspirada pela Chika, eu decidi ir ao meu jardim fotografar a minha cerejeira que tinha acabado de florir. O céu estava nublado, não havia muita luz e eu aumentei a exposição das fotos para obter estourar um pouquinho as fotos, mas eu gostei do resultado. Foi ótimo parar um pouco, olhar para aquelas flores cor de rosa tão lindas e que eu gosto tanto, pensar no mundo de coisas que pode-se fazer com elas. Eu adoraria colher, secar e salgar, colocar no alcool, fazer extrato e experimentar. Talvez no próximo ano... Se um dia eu preparar meu próprio extrato de flor de cerejeira eu mando um vidrinho para a Chika brincar, sem dúvida.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Café da manhã de uma expatriada: canjica de coco ou mungunzá...



Os dias andam uma loucura pela manhã... preciso despachar crianças para a escola, preparar merendas, preparar o meu dia e ir para a loja. Vida de comerciante é uma loucura, ainda mais quando é a loja do eu sozinha... Estava comendo mal de manhã, sem muito tempo. Um pãozinho e café, mas não poss ficar no pão. Preciso, mas preciso muito deixar de comer glúten. Coisas pós-hipertiroidismo, coisas de uma sistema imunológico que precisa de apoio incondicional. E deixar gluten, açúcar, lácteos e fermentados em algum lugar do passado seria um grande benefício para mim. Mas ainda não dá para deixar tudo isso para trás. Em especialmente os leites. Precisa tentar uma coisa de cada vez e começo com o glúten.



(Canjica de coco com suco de maça. Café da manhã, solitário e super espartano dá paz e sossego ao meu estômago "estressado" e ainda sustenta o corpo em dia de trabalho intenso).

Para substituir o trigo, malvado, dá-lhe milho e farinhas de mandioca em todas as suas nuances. Trouxe do Brasil um monte de sacos de farinhas, polvilhos e milho branco, aquele que chamamos de milho de canjica no Rio. Sempre que dá me dou o prazer de fazer canjica para o café da manhã. Canjica de coco, ou mungunzá, como é chamada no nordeste, sempre foi uma adoração minha e cai super, hiper bem no estômago sensível. A canjica quentinha, feita com leite ultra-hiper-desnatado e orgânico, leite de coco também orgânico, baunilha bourbon orgânica, canela, coco ralado orgânico e milho do interior do Estado do Rio e um cheirinho de açúcar de cana orgânico. Nada pode ser mais agradável.


(A garrafa e o castiçal de vidro estão na mesa pois eu acabei de compra-los, num brechó local. Eu fiquei admirando os detalhes enquanto saboreava minha canjica.)


Uma canjiquinha no café dá manhã são coisas me ajudam a vencer um dia, sem muito sofrimento. Sou capaz de passar a manhã quase inteira sem precisar comer nada além da canjica. Claro, depois da canjica e do suquinho de maça rola um cafézão, preto e amargo, pois essa que vos escreve é uma mulher-café. Mas canjica antes de dormir é uma outra forma de prazer que pratico com frequência...




Canjica de coco (Mungunzá)


- Receita para quem não usa panela de pressão nem deixou o milho de molho de véspera!


1,5 litro de leite 0,1% de gordura orgânico
2dl de milho para canjica (cerca de 200 gramas
350 ml de leite de coco orgânico de baixo teor de gordura
100 gramas de coco ralado fresco ou seco, use o que preferir
1/2 colher de chá de pó de baunilha
1 pauzinho de canela
Açúcar a gosto


Como:

Lave o milho e escorra. Coloque numa panela de fundo grosso, cubra com água e leve para ferver em fogo médio. Deixe que o milho ferva até reduzir bastante a água, pela metade mais ou menos. Depois que o milho ferveu e a água evaporou bastante, pela metade pelo menos, adicione um litro de leite ao milho fervido em água, sem desligar o fogo e sem retirar a panela do calor. Deixe que o leite ferva e adicione o leite de coco, o coco ralado, a baunilha, a canela e açúcar a gosto. Deixe que a mistura cozinhe em fogo médio até o milho ficar macio, cerca de uma hora, em fogo baixo. Se a mistura começar a engrossar e/ou secar rápido demais, reduza o fogo e adicione mais leite até usar todo os 500ml restantes. Se precisar de mais leite, use mais e se precisar de mais tempo para cozinhar o milho, faça isso. Eu gosto do milho cozido no ponto, não muito mole e não uso panelas de pressã, prefiro deixar cozinhar.

Obs. Retire a baunilha se preferir e adicione mais canela, se desejar. Adicione cravos se te agradar. Pode adicionar também cumaru, amburana, erva-doce e/ou anis. Com cumaru e/ou amburana a canjica vira um balsamo para o estômago... Com anis a canjica torna-se um anti-viral poderoso, excelente para combater as gripes de inverno.


Sirva quente.



Obs 2. Alguns me perguntam porque eu trago tanta farinha de madioca, polvilho azedo, polvilho doce e milho branco do Brasil se é possível encontrar alguns similares aqui. Bem, nenhuma farinha de mandioca, nem polvilho é igual aos do Brasil. Os polvilhos de mandioca da Åsia são péssimos, uma desgrama fedorenta, eu os uso, eventualmente, mas não servem para pão de queijo nem para biscoito de polvilho, por exemplo. A farinha de farofa de Ghana é boa, mas no fim me parecem estar sempre velha, tem um gosto de fundo e não tem o mesmo perfume da marca Tipiti, de Barra do Itabapoana, no Estado do Rio, que trago quando viajo.

Na minha fase sem trigo, sem glúten eu preciso muito de farinhas de mandioca e de milho, mais do que nunca. Felizmente boas farinhas de milho eu já encontrei, e todas orgânicas, o que é simplesmente sensacional. Outro dia encontrei farinha de mandioca azeda, também de Ghana, fiquei curiosa mas a embalagem suspeita, um plástico sujo, sem data de vencimento e sem muita informação tinha um preço caríssimo. Aquela aparência me deixou em dúvida e decidi não experimentar, ainda. Vamos ver se dá próxima vez eu me arrisco.