segunda-feira, 25 de abril de 2011

Um bolo de chocolate para reavaliar as primaveras...



A mudança das estações não é algo que me agrada. Para falar a verdade, a mudança das estações do ano me desagrada em todos os sentidos. E não só as mudanças no ambiente natural, a passagem das "primaveras" humanas, os tais aniversários, a passagem do tempo em si, me aborrece. Mais do que desgostar do inexorável fato de que envelhecemos, um coisa complexa, eu no fundo desejaria poder ter a certeza de que as coisas permaneceriam do jeito que estão por certo tempo. Mas simplesmente não rola. Talvez, por isso, eu tenha desenvolvido um certo desgosto para celebrar os meus aniversários. Uma coisa bem pessoal, eu tenho bode em relação ao meu aniversário, mas apenas do meu.



Essa coisa está se intensificando e ultimamente já não me interessa celebrar nem meu aniversário de casamento, nem os aniversários de coisas menores como este blog, por exemplo, o qual jamais celebrei. No entanto, me alegra celebrar os outros, aquelas pessoas que eu amo ou que fazem uma falta imensa por estarem distantes. Fico muito feliz em celebrar as pessoas que amo.. E também fico muito feliz quando essas pessoas que eu tanto amo querem muito, mas muito mesmo, me celebrar. Aí eu aposento o guarda, relaxo e aproveito E assim foi.




E era meu aniversário, há exatos oito dias, eu acordei e fui para a cozinha onde encontrei as crianças fantasiadas de chefs. Uma batendo ovos e outro peneirando farinha. Enlouquecidos de felicidade diante da responsabilidade, seria uma surpresa mas eles ficaram felizes com minha entrada triunfal. Eles queriam tanto que tivesse bolo que a minha chegada era certeza do projeto bem sucedido. Eu acabei ajudando, fiz algumas alterações na receita, ajudei com a decoração, fiz uma ganache de chocolate que também usei no recheio e o bolo ficou uma maravilha, do jeito que eles gostam, com granulado e tudo e ficamos todos felizes. Valeu a pena, não doeu nada, as crianças estavam numa alegria contagiante e eu aproveitei tanto entuasiasmo para fazer uns suspiros de amêndoas, só para me agradar.




Na noite anterior eu tinha sido presenteada entre outras coisas com um grande buquê de tulipas. E assim foi, na mesa da cozinha, sem toalha, sem firulas, sem detalhes, um bolo, suspiros de amêndoas, tulipas, uma tarde nublada, "parabéns para você" cantado em três línguas e eu aceitei celebrar o meu tempo passar. Interessante as trajetórias pessoais. Veja bem, eu sou historiadora de formação e, muito naturalmente, em função disso, durante longos anos a noção de "tempo" ocupou o papel central na minha lógica pessoal, a localização de alguém no "tempo" era mais importante do que tudo. Mas eu mudei, mudou meu tempo e meu espaço e eu mudei. E ainda virei geógrafa e me apaixonei pela noção de "espaço" e pela lógica própria dos "lugares". Já não me bastam mais as explicações dadas pelo "tempo", talvez nem mesmo aquelas do "tempo no espaço". Eu queria mais, mas acho que é assim mesmo.



E voltando à mesa da cozinha, no dia do aniversário, o bolo servido foi um basicão de chocolate com iogurte coberto, tipo esse aqui mas eu adicionei umas 100 gramas de manteiga derretida no final. É uma receita pequena mas perfeita e servi recheado com ganache de chocolate. Os suspiros de amêndoas são os mesmos de sempre e eu já publiquei aqui e
aqui. Se você não viu e deseja uma receita de um suspirinhos e/ou suspirinhos de chocolate se jogue nos links.





Bolo de chocolate e iogurte


125 ml de iogurte natural
250 ml de açúcar
250 ml de farinha
125 ml de cacau em pó
3 ovos
10 ml (colher de chá) de extrato natural de baunilha
1 colher de chá de fermento em pó
100 grama de manteiga com sal derretida

Como:

Unte uma forma de bolo redonda pequena com manteiga e salpique cacau em pó. Pré-aqueça o forno a 180C. Misture o iogurte com o açúcar. Adicione os ovos, um de cada vez batendo sem parar. Adicione a baunilha e misture um pouco mais. Peneire a farinha, o cacau e o fermento e adicionar aos poucos a mistura de farinha. Adicione por fim a manteiga derretida e usando uma colher de pau mexa suavemente até incorporar totalmente a manteiga à masssa. Transfira a massa para a forma untada e leve ao forno quente. Asse os bolinhos 25 a 30 minutos ou até que enfiando um palito ele saia seco. A massa é bem densa, típica dos bolos com iogurte mas o sabor é maravilhoso.Deixe esfriar antes de remover das forma.

Recheie com ganache de chocolate, brigadeiro ou a calda de chocolate que preferir.

Serve 6.



domingo, 24 de abril de 2011

Uma banda em Åre para relaxar...



Deveria estar fazendo contagem regressiva para a abertura da loja que abre quarta-feira, dia 27 de abril. Adoro abril, adoro números terminados em sete e adoro quartas-feiras então fica combinado assim, abrimos quarta-feira dia 27 de abril. A abertura de uma loja é coisa complicada e pode demorar se você deixar, um monte de coisas vão ficar penduradas. Já me conformei que nem todos os produtos desejados vão chegar a tempo da abertura. Já me conformei com os impostos altíssimos para o café e o chá que vamos servir num pequeno balcão, já me conformei com a demora para liberação de produtos na alfândega norueguesa e já me conformei que nada vai ser de cara do jeito que eu sonhei, mas, aos poucos, chegamos lá. Contagem regressiva? Mas que nada, fomos dar umas bandas pela aí.



Enfim, são tantos, mas tantos, mas tantos detalhes que sinceramente, se eu não fosse muito relax eu teria pirado. Mas eu me dou ao direito de ir devagar, de relaxar e de descansar e, não esqueçam, somos apenas eu e Per neste projeto todo, nosso trabalho, nosso suor e nosso dinheirinho... Loucura? Total! Noruegueses não sabem o que os esperam por trás do meu balcão... mas vai ser tudo aos poucos, não dá para ser e ter tudo ao mesmo tempo agora. Por hora é um balção, lindo, feito de madeiras com mais de 100 anos que foram recicladas por nós depois de abandonadas no final da reforma da igreja de Malvik no nosso bairrinho-município.



Impressionante a relação que está se construindo entre nossa lojinha e as igrejas do meu pequeno município. Além de termos usado madeiras que foram retiradas da fachada da igreja de Malvik (que foi refeita com madeiras novas), nossa loja fica na rua de outra igreja, da igreja de Hommelvik, no simbólico endereço Kirkegata, 2, i.e., Rua da Igreja, nº2. Diante do meu incurável ateísmo acho tudo muito interessante já que, apesar da minha falta de fé admito que as igrejas sempre me serviram de inspiração estética. Acho-as belíssimas em geral, em especial as grandes e dramáticas catedrais.



No meio da correria, porque me dou o direito, fomos passear na Suécia. Cunhada tem chalé em Åre, ela estava de plantão no começo do feriado, o chalé vazio fomos nos despedir da neve e do frio. Eles sim, eu não. Frio e neve já vão tarde. Mas enfim, enquanto uns esquiam, ou se jogam no snowboard, eu sassarico, faço compras e até à biblioteca eu vou. Fomos à Åre como já está virando tradição familiar.

Já escrevi sobre Åre em outras postagens: Outras páscoas em Åre aqui
E imagens do Natal em Åre aqui.

Mas como foi meu aniversário na semana passada e eu tinha expressado o desejo de ir até Åre visitar a fábrica de chocolates e acertar um pedido de chocolates para a loja. Sim, agora é oficial, vamos vender os chocolates da fábrica de chocolate de Åre, aqui em inglês. Mas ainda não vamos abrir com eles. Mas em maio eles vão decorar nossas prateleiras.




E no fim, depois de muito se jogar na neve, Estela e Per estavam acabados. Quando eles desceram eu já estava no estacionamento, diante da entrada do bondinho que sobe até o restaurante lá no alto da montanha. Åre é a principal uma estação de esqui alpino da Suécia, fica no norte do país, mas aqui pertinho (1h30 da minha cozinha), junto ao meio-norte da Noruega. É super movimentada e apesar de parecer pequena ela tem montes de pistas e conta 20 elevadores, descobri ontem, para levar o povo todo lá para cima. É uma loucura de gente o inverno inteiro e principalmente na páscoa quando eles querem aproveitar os últimos dias, eu diria, as últimas horas da neve da estação durante este feriado tardio. Do carro eu, enquanto eu esperava, fiquei observando o movimento, fazendo fotos apesar do dia nublado, alguma antropologia social e pensando como são exóticos esses suecos.



Os dois desceram e fomos comer num restaurante bem no centro engarrafado da pequena Åre. Vejam a imagem da pequena snowboarder cansada e faminta...





Meu amor adora posar de sério, mas de sério ele tem é nada, pura timidez. Ou será cansaço? O pobre homem está visivelmente cansado. Ah, o amor...





Fomos comer no Wersens, um restaurante-bar movimentado e super legal que faz versões leves e modernas da comida tradicional sueca. A comida estava muito boa, barata e ótimo serviço. O couvert, gratuito diga-se de passagem, vinha com uma manteiga sensacional, feita ali mesmo. Coisa de louco. Eu pedi um prato muito típico, um bolo-biff de carne de porco com batatas, que na verdade é um grande bife de carnes de porco e boi moídas servido com molho de creme de cebolas, salada de pepino agridoce (não aparece na foto) e arandos, ou como se diz aqui, tyttebær. Essas frutinhas, que os suecos chamam de lingon, são um acompanhamento clássico para carnes e as tradicionais bolas de carne suecas.




As frutinhas são deliciosas mas em geral o que se vê são geléias ou compotas cheias de açúcar e que ganharam o mundo via Ikea. Os arandos-tyttebær, como os da foto são, eu diria, uma espécie de especiaria nórdica, e estavam maravilhosos. Suculentos, saborosos e docinhos, mesmo sem adição de açúcar. Saber colher na hora certa, congelar e depois descongelar com todo cuidado é um trunfo num país frio como esses. Per escolheu uma perna de porco servida no osso com lascas de cebola, purê de batata e ervas e um molho caramelizado de qualquer coisa que não lembro o que. Estelita traçou um espaguete a bolonhesa pois não é boba, nem nada.






Em breve eu volto. Prometo. Com fotos de um prato de páscoa e de um bolo de aniversário.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

O fetiche da mercadoria...



Loja em tempo integral, é isso que a minha vida se tornou no atual momento. Enquanto isso, espero que em pouco tempo esta se torne apenas um trabalho e deixe algum espaço para que outros assuntos voltem a me ocupar. E enquanto corremos contra o tempo, para terminar tudo o que é preciso para a abertura da loja continuamos nas mãos de alguns, esperando entregas e desenlaces. Geladeiras, sabe aquelas lindas geladeiras com portas de vidro transparente? Pois bem, ainda não conseguimos receber as nossas, que deveriam ter chegado no final de março mas ainda nada. Melhor relaxar e deixar de lado os pedidos de alimentos refrigerados. Será? Impossível relaxar e esquecer os queijos que ainda não temos...



Fiz algumas colagens com mais fotos da loja, de alguns produtos que me encantam, tudo muito pessoal. Mas as fotos ainda estão de baixa qualidade, a luz da nossa lojinha ainda não está toda pronta e não é nada fácil fazer boas fotos por lá sem a adição de luzes artificiais. Dá para sentir que a coisa está bem perto de ficar pronta. Se ainda faltam geladeiras e alguns produtos, nós já temos quase tudo o que precisamos. Ainda falta acertar os detalhes finais da decoração, por exemplo, a pintura do vidro da vitrine e concluir o projeto da decoração da vitrine em si. Nossa, e a decoração da vitrine para a abertura tem me deixado sem dormir. Criei algumas opções mas diante da imensa variedade de possibilidades foi difícil decidir qual seria a vitrine para a abertura. Mas depois que demorei para decidir a produção já começa um pouco atrasada, mas está saindo tudo a gosto, sabe como?



E diante de tantos produtos oriundos de tantas origens diferentes, diante de tantas embalagens lindas e atraentes, cercada pelo encanto provocado pelos produtos orgânicos, nada mais natural do que lembrar e desejar reler Marx, para relembrar idéias que são tão absolutamente atuais neste meu novo ambiente "natural". Para quem deseja entender do que estou falando, abaixo uma pequena reprodução do texto de Marx sobre o "fetiche da mercadoria". Espero que vocês se divirtam com as fotos e não esqueçam de clicar para vê-las em tamanho grande.



Commodity fetishism (O fetiche da mercadoria)

"A commodity is a mysterious thing, simply because in it the social character of men’s labor appears to them as an objective character stamped upon the product of that labor; because the relation of the producers to the sum total of their own labor is presented to them as a social relation, existing not between themselves, but between the products of their labor. This is the reason why the products of labor become commodities, social things whose qualities are at the same time perceptible and imperceptible by the senses. In the same way the light from an object is perceived by us not as the subjective excitation of our optic nerve, but as the objective form of something outside the eye itself. But, in the act of seeing, there is at all events, an actual passage of light from one thing to another, from the external object to the eye. There is a physical relation between physical things. But it is different with commodities. There, the existence of the things qua commodities, and the value relation between the products of labor which stamps them as commodities, have absolutely no connection with their physical properties and with the material relations arising therefrom. There it is a definite social relation between men, that assumes, in their eyes, the fantastic form of a relation between things. In order, therefore, to find an analogy, we must have recourse to the mist-enveloped regions of the religious world. In that world the productions of the human brain appear as independent beings endowed with life, and entering into relation both with one another and the human race. So it is in the world of commodities with the products of men’s hands. This I call the Fetishism which attaches itself to the products of labor, so soon as they are produced as commodities, and which is therefore inseparable from the production of commodities. This Fetishism of commodities has its origin, as the foregoing analysis has already shown, in the peculiar social character of the labor that produces them."

Karl Marx, O Capital Vol. 1, chapter 1 section 4




(As chaves da loja, num chaveiro muito lindo que eu ganhei da minha tia querida...)