sábado, 28 de agosto de 2010

Mudanças imaginadas...



Pessoas queridas, perdoem o longo silêncio. O ano escolar começou a todo vapor, a semana foi intensa, muitas tarefas, um seminário e vários trabalhos por acabar e outros novos por começar. No final dos corridos dias eu simplesmente chapava, cansada e preguiçosa demais para encarar o computador. Acho que todos passam por isso depois das férias. Enfim, faz algum tempo eu escrevi que desejava uma mudança de rumos para o blog, que depois de dois anos de receitas e delírios eu preciso de algo mais para continuar seguindo. Tem uma hora em que é preciso unir as pontas soltas, estabelecer uma conexão mais forte e dar mais sentido aos meus blogs. Além disso, uma das coisas bacanas de se fazer blog é exatamente a facilidade de fazer mudanças, assim, a qualquer momento. A parte difícil é mudar, mudar as mentes, isso sim demanda esforço sobre-humano já que, nós, humanos, apesar da aparência tão evoluída gostamos mesmo de permanência, de proteção e de certezas.



Entre as mudanças que eu estou planejando está a mudança do nome deste blog. Adoraria deixar para trás o lado saudosista e melancólico. Desejo muito dar mais espaço ao meu espírito político-crítico-debochado e rir mais de mim e do mundo. Mas isto ainda é um plano, já que ainda não encontrei um nome novo que represente tudo o que tenho em mente. Não que "sabor saudade" represente alguma coisa concretamente, sinceramente? Sempre foi apenas um nome. Mas já que eu planejo uma mudança, eu gostaria que o novo nome representasse alguma coisa, ao menos para mim. Vamos ver o que surgirá por aí. Assim que alguma luz se acender eu aviso. Por hora as idéias que surgiram ainda não parecem valer a pena.





A necessidade de mudanças é resultado de uma série de coisas, de processos íntimos, pessoais e de rede mesmo. Eu planejava mudar há tempos, cheguei a contratar um designer para produzir um desenho novo para o Sabor Saudade, selecionei algumas fontes novas para o blog, mas as coisas acabaram atrasando, o designer pegou um trabalho grande e a coisa foi adiando. E enquanto as coisas atrasavam veio a morte do meu irmão em fevereiro, uma "puxada de tapete" violenta na minha vida, uma queda da qual ainda não sei quando serei capaz de me recuperar totalmente. Mas derrota por nocaute não faz meu estilo, um no-show, talvez, mas nocaute jamais. Mas o fato é que desde fevereiro que certas coisas deixaram de ter qualquer importância para mim.



Faz tempo que eu desejo aprofundar o conteúdo das minhas postagens na direção das minhas pesquisas sobre agricultura. Unir minhas pontas. Depois de dois anos eu acho que sei melhor o tipo de blog de comida eu quero fazer. E eu acho que as coisas vão mudar bastante, já estão mudando. Também acredito que ninguém mais aguenta esse monte de receitas repetidas, quase sempre as mesmas coisas com fotos levemente diferentes. Apesar do tamanho do meu bode ainda ser grande, eu adoro fazer este blog. Eu gosto de escrever em português, falar para a rede de língua portuguesa, gente que realmente me entende. Aqui eu conheci pessoas ótimas, incríveis, cheias de entusiasmo e carinho e quero continuar cultivando esse aspecto do blog.



Acho que o momento atual é muito especial, de transformações, complexo e demanda mais atitude e mais atenção. Além disso acho que cheguei ao meu limite de receitas originais. Vivo numa parte do mundo razoavelmente pobre de alternativas onde não há um mundo de biodiversidade a me inspirar os dias. Aqui o buraco é mais embaixo e a coisa toda é extremamente repetitiva. Além disso o que me interessa hoje é promover uma cozinha muito mais saudável e por isso mais saborosa. Quero me especializar em alguns assuntos, como tudo feito em casa, com foco pesado nos alimentos orgânicos, intensificar minha guerra contra o cinismo dos produtos transgênicos, os alimentos processados e a falta de originalidade. Como eu cozinho muito, todos os dias, todas as refeições servidas para minha família são pensadas, produzidas e servidas por mim, eu vou continuar tendo muitas coisas interessantes para publicar já que é exatamente a cozinha do dia-a-dia que me dá mais prazer... Mas meu plano é melhorar o conteúdo. Vamos ver.



Engraçado, que enquanto eu escrevia esta postagem a Valentina deixou um comentário. O primeiro comentário deste blog, dois anos atrás, foi feito por ela e não é que tudo parece tão acertado.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Cavala com molho de laranja e o nosso lago...



Enquanto há vida, há verão. E o verão mostrou alguma compaixão pelo povo que vive nestas bandas do norte. O sol raiou, esquentando e embelezando maravilhosamente as últimas semanas. Muito sol e calor, mas veja bem, calor para os padrões nórdicos onde 27C é muito calor. E esta é a última semana de férias de verão e por isso eu e as crianças estamos aproveitando do jeito que podemos os últimos dias de férias e de sol. Per já voltou ao trabalho mas no final do dia vai nos encontrar na praia ou no lago, depois do trabalho. Muita praia e muitos banhos de lago, naquele que é o "nosso lago". O "nosso lago" é parente da "nossa praia", ambos muito próximos daqui. A praia fica a 800 metros e o lago fica a cerca de 1,5km daqui de casa, mas este último ladeira acima.




O "nosso lago" é multiuso já que serve tanto para patinar no inverno como para pescar e nadar no verão. Diferentemente do mar do fiorde, que é gélido a maior parte do ano, as águas doces do lago são mornas e a água é mineral, dá para beber e nadar em paz. Per e as crianças adoram ir ao lago pescar a noite. Eu não tenho muita paciência para pescar e na maior parte das vezes eu "passo" e vou fazer outras coisas. Eles sempre trazem uns peixinhos para casa, umas trutinhas de lago, nada a ver com a cavalinha linda da foto. Esta cavala é de mar, claro, e foi comprada no mercado quando estava fresquíssima.



A cavala, ou cavalinha no Brasil, é conhecida em norueguês como makrel, mackerel em inglês, é um peixe oleoso do gênero Scomber cuja espécie Scomber scombrus é muito consumido no norte da Europa. Este da foto eu chamaria de cavalinha do atlântico do espécie Scomber scombrus. No Brasil chamamos de cavalinha todos os peixes da "linha" Scomber. Em Portugal podem se chamados tanto de cavala como de carapau e na Galícia de cabala. A cavala, ou cavalinha, é um dos alimentos mais básicos da dieta escandinava. Noruegueses de todas as idades, principalmente crianças, comem cavala passada no pão todos os dias (veja bem: TO-DOS-OS-DI-AS!) do mesmo jeito que nós passamos manteiga eles comem cavalinhas em molho de tomate. Eles na verdade colocam as tirinhas de cavalinha no pão com manteiga!



A cavala dos noruegueses é enlatada em molho de tomate, exatamente como as sardinhas que comemos muito no Brasil. Diferentemente das sardinhas, não há cavala enlatada sem molho de tomate, tipo em óleo por exemplo. Cavalinhas em lata só com molho de tomate. Eu até gosto da cavala em lata, mas nunca no café da manhã, uma coisa que não aceito de jeito nenhum é peixe no café da manhã. Enfim, mas prefiro cavalinhas frescas, exatamente como as sardinhas. Na minha opinião a cavala é uma sardinha grande e acho que ambos tem consistência e sabor muito semelhante. Alguém concorda? Como as sardinhas, a cavala é um peixe mais barato mas extremamente saudável (bota saudável nisso!) e saboroso. Aqui não é costume comer a cavala fresca, grelhada na brasa ou cozida, como fazemos com a sardinha no Brasil. Cavala não é o tipo de peixe que você encontra nos cardápios dos restaurantes. Aqui a cavala ou é enlatada ou defumada, comida com pão no café da manhã.




A receita que eu usei é inspirada nesta aqui do blog British Larder, com diz o nome, um blog britânico. No original o peixe é servido com salada mas servi com verduras refogadas, super simples. Os filés eu grelhei em um tantinho de azeite de oliva na mesma panela e servi com a minha versão do vinagrete de laranja que vi aqui. Na minha opinião peixes oleosos combinam super bem com cítricos e quando vi esta receita achei uma excelente idéia servir a cavalinha grelhada com salada de entrada. Eu fiz um vinagrete mais simples, sem açafrão e sem sementes de coentro pois eu não tinha em casa no momento.




Cavala com molho de laranja e legumes


Dois filés de cavala limpos, com pele e cortados em quatro pedaços (de uma cavala com cerca de 500 gramas)
uma cebola pequena ou meia cebola grande fatiada em fatias ultra finas
uma maça verde lavada e ralada com casca
meia acelga fatiada em tiras bem fininhas
um punhado de endro fresco picado grosseiramente
azeite de oliva a gosto
sal e pimenta

Como:

Faça cortes superficiais na pele do peixe, tempere com sal e pimenta e reserve. Numa frigideira grande e anti-aderente sobre fogo médio esquente um pouco de azeite. Adicione a cebola fatiada e cozinhe até que ficar transparente. Adicione então a acelga e deixe que cozinhe até que comece a ficar macia mas sem perder muito volume. Adicione o endro, o sal e a pimenta e cozinhe por mais um minuto no máximo. Divida os vegetais em dois pratos. Coloque a maça verde ralada sobre os vegetais. Coloque mais azeite na mesma frigideira onde cozinhou os vegetais e quando esquentar coloque os filés de cavala com a pele voltada para baixo. Deixe que fritem no óleo por cerca de dois minutos ou até que a pele fique bem tostadinha e depois vire para cozinhar o outro lado. Deixe cozinhe por mais um minuto e apague o fogo. Jogue um pouco do vinagrete sobre os filés na frigideira. Coloque duas partes de filés, em cruz, em cada prato sobre os vegetais e coloque um pouco mais do vinagrete de laranja sobre o peixe no prato.


Para o vinagrete de laranja, baseada nessa receita aqui

50 ml de suco de laranja
50 ml de azeite de oliva
1 colher de sopa de shoyu
1 colher de sopa de vinagre claro
1 colher de sopa de mostarda forte escura
1 colher de sopa de mel
sal e pimenta do reino a gosto

Como:

Coloque todos os ingredientes numa tigela de inox ou vidro e usando um batedor bata o molho até incorporar totalmente e use imediatamente. Se preferir coloque os ingredientes num pote de vidro com tampa, tipo vidro de geléia, feche e chacoalhe o vidro até que forme um molho homogêneo.

Sirva o peixe o molho vinagrete de laranja.





As férias estão acabando mas parece que as crianças não se importam, ambos estão super ansiosos para voltar às aulas, começar um novo ano escolar e rever os amigos. Eu estou cheia de tarefas para concluir e vejo o começo do ano letivo como um grande desafio. Novos horários, novas atividades para todos e eu preciso me adaptar a todas elas. A parte difícil da vida de mãe. Enfim, o lado bom é que este é ano de eleição e já estamos preparando uma viagem boa até Oslo para ir votar. Por causa das eleições eu entrei para o Twitter e entre um jornalista político e outro comecei a acompanhar alguns blogs amigos. Se você estiver interessada em me encontrar por lá clique aqui.




Estas águas não te deixam com vontade de ir nadar? E neste lago as águas são quase mornas...

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Macarons de chocolate e castanha do Pará...



Eu adoro castanha do Pará, a castanha do Brasil. É uma das minhas favoritas. Eu ainda tinha um pacotinho daqueles enviados pela Flávia no final do ano passado. Eu usei os pacotinhos como preciosidades, castanhas do Pará orgânicas e deliciosas. Sempre que eu tenho castanhas do Pará eu pico e coloco na granola que eu faço e como diariamente com iorgurte, uma dose extraordinária de selênio. Mas o último pacote eu planejva usar em uma receita mais doce. Muitas eram as opções mas como aquela primeira versão do macaron com castanha do Pará ficou tão boa que eu decidi repetir e fazer uma versão usando cacau.



Eu acho que os macarons ficam bem melhor quando feitos com castanhas do Pará e dentre todas as versões que eu já preparei, eu acho que os macarons feitos com amêndoas são os menos interessantes. Além disso eu acho que "os bichinhos" ficam perfeitos quando feitos com avelãs ou castanhas do Pará e ainda ficam bem mais saborosos. Talvez seja impressão minha, mas as nozes e castanhas mais gordurosas parecem ajudar no processo todo. Será? Esta é mais uma das minhas suposições não comprovadas, pura conjectura. Como eu continuo preferindo macarons sem recheio, talvez por isso, eu prefiro os macarons feitos com castanhas e nozes com mais perfume e sabor mais intenso. Eu gosto de comer dois macarons casadinhos ao mesmo tempo, sentir a textura, mas sem nada entre eles. Para acompanhar uvas brasileiras sem caroço e uma xícara de café arábica puro forte, amargo e filtrado. Vou revelar um fato muito pessoal, detesto café espresso e café adoçado.




Macarons de chocolate e castanha do Pará


80 gramas de claras de ovo (três claras pequenas)
80 gramas de farinha de castanha do Pará
150 gramas de açúcar de confeiteiro
25 gramas de cacau em pó puro
50 gramas de açúcar comum
pitada de sal

Como:

1. Forre dois tabuleiros grandes com papel manteiga e reserve. Prepare a farinha de castanhas do Pará processando as castanhas com o açúcar de confeiteiro, o sal e o cacau em pó no processador para obter uma farinha fina. Cuidado para não bater demais e deixar a farinha muito gordurosa. Depois passe a mistura pela peneira e então pese novamente para conferir quantas partes de castanha sobraram na peneira. Você vai precisar calcular a quantidade a ser triturada levando em consideração a quantidade de castanhas que vão sobrar pois não passaram pela peneira. Reserve a mistura. Parece complicado, mas não é, principalmente se você tiver um pilão...

2. Bata as claras em neve, quando elas começarem a endurecer adicione o açúcar comum, uma colher de cada vez e bata até formar um suspiro brilhante e duro. Cuidado para não bater demais e deixar o suspiro quebradiço.


3. Adicione aos poucos a mistura de açúcar, cacau e castanhas ao suspiro e mexa suavemente. Use uma espátula e mexa de baixo para cima, até incorporar totalmente a farinha ao suspiro. Não mexa demais, apenas o suficiente para que obter uma mistura homogênea, sem traços de farinha nem de suspiro. Faça um teste para saber se está no ponto: coloque uma colherzinha de massa num pires ou no canto da forma. Se a massa se espalhar levemente e ficar totalmente lisa na parte do domo, sem aquela pontinha de suspiro, ela está no ponto. Se o círculo de massa não ficar liso e a pontinha arrepiada típica de suspiros permanecer você vai precisar bater a mistura um pouco mais. A mistura estará no ponto de macarons quando o tomo de massa ficar lisinho depois de colocado na forma com uma colher ou com um saco de confeiteiro.

4. Usando um saco de confeiteiro ou colherzinha (estes eu fiz com a colher) forme pequenos círculos de massa nos tabuleiros forrados com papel manteiga e deixe que os biscoitos recém formados sequem por cerca de 15 a 20 minutos, ou até que formem uma casquinha dura, antes de assar. Asse por 10 minutos a 160C. Você vai precisar conhecer bem o seu forno para obter os melhores resultados pois o tempo de forno pode arruinar o resultado final.

5. Deixe os macarons esfriarem totalmente antes de retira-los do papel manteiga. Assim que tirar do forno espere uns dois minutos e puxe o papel manteiga com os macarons grudados com todo cuidado e deixe que o papel com os macarons esfriar sobre uma superfície fria ou um aramado. Eu nunca tive problema para retirar os biscoitos do papel manteiga, depois de frios eles soltam que é uma beleza, mas aqui onde vivo é um lugar muito seco, talvez em ambientes mais úmidos seja mais difícil retira-los do papel.

6. Recheie os biscoitinhos se você desejar. Eu prefiro puros. Rende cerca de 25 a 30 casadinhos, 50 a 60 biscoitinhos, dependendo do tamanho do das conchinhas que você faça.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Morangos de outros jardins...



Ontem Estela e eu fomos colher morangos numa fazendinha aqui na vizinhança. É tudo no esquema pegue e pague. Levamos três potes e enchemos os três com morangos dulcíssimos, ao estilo da região. Pegamos ao todo 4,2kg, bem pouco se comparado com os caixotes que nossos vizinhos estavam colhendo. Mas planejamos voltar na quinta para pegar mais uns quilos de morangos e encher o freezer. Faça chuva ou faça sol.



O preço que eles estão cobrando pelos morangos é bem barato para os padrões locais: NOK 25,00 por quilo colhido e pagamos NOK 105,00 pelos nossos lote de 4,2 kg. Este preço corresponde a cerca de R$8,00/quilo de morango de altíssima qualidade. Aqui jamais encontramos no supermercado uma cestinha de 400 gramas de morangos noruegueses (que são bem mais caros do que os importados diga-se de passagem) por menos de NOK 19,00, e isso em oferta. O preço normal nos mercadinhos é NOK 40,00 (39,90) por cada cestinha com 400 gramas de morango. Além de termos morangos doces e frescos ainda pagamos pouco, excelente negócio.


Estela não queria que eu tirasse fotos dela com a bunda para cima, colhendo morangos,de jeito nenhum. Mas, em compensação, nennhum dos meus vizinhos parecia preocupado com a minha lente apontando para as bundas deles...


Nossa produção foi pequena, 4,2 quilos, só para fazer graça.


Fila na hora de pagar pelos morangos...